quarta-feira, 18 de abril de 2012

O POETA ANDANTE. UM DOADOR DE CORAÇÃO.


É ele. O moço. O doador de coração.

Essa é a história mais bem vista nos ônibus de Belém.
Na minha cidade existe um moço que se aproxima dos outros passageiros com a mesma calmaria das chuvas da tarde e deposita sobre nossas mãos, o seu coração.
O coração desse moço sempre conversa com cada passageiro. E tudo é mais ou menos assim, ele chega com uma pequena dose da sua fala poética e, BUM atravessa em um voo cortante a nossa atenção.

Depois ele desce do ônibus.
E nós seguimos com o coração dele guardado em nossas mãos. Sem pagar nada.

Acho que ele é uma espécie rara. Um tipo poeta andante que publica sua voz calma, serena e pulverizadora, combatendo os nossos vícios daninhos dentro dos ônibus em uma cidade bem distante das outras, no País chamado Brasil.
O coração dele mais parece um fertilizante lançado sobre as áreas de interesse.

Assim é o coração do Antônio Juraci Siqueira, o moço do ônibus, dessa história que hoje lhes conto.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

VER O PESO DE DOIS POETAS NA BALANÇA


Paulo Vieira e Daniel Leite reconhecendo o Peso Vero

Primeiro ouvi um barulho dentro da minha cabeça. Ouvi o barulho de rachadura do pensar a minha cidade. Comecei lendo Daniel Leite, poeta paraense. E depois de tantas páginas percorridas, ouvi mais rachaduras. Continuei lendo e avancei para as páginas do livro dividido com Paulo Vieira. E a rachadura concluiu o seu percurso: virou pó de pensamento. Acabo de ler dois poetas de Peso Vero. Um de pé firme na sua terra, Daniel Leite, poeta paraense de expressão regional. O outro de pé solto, desvairado, pé solto no ar, sabedor da sua cidade, mas cheio de liberdade. Paulo Vieira avança nas páginas do Peso Vero arrebentando a sua terra para plantar novos símbolos. Paulo Vieira, poeta paraense de expressão universal, traz homens de outras Nações para viver no Peso Vero, andar sob a sua escrita, pisar no chão do seu olhar poético. Vieira cura a cegueira de Homero e faz dele outro homem. Faz Homero beber Café com leite na casa de Prévert, relembrando “Il a mis le café dans la tasse” para então refazer “Ila preparava o café e o leite”. Enquanto isso, nas páginas primeiras lidas, Daniel Leite chama a Menina do café para lembrá-la do Peso Vero que a vida inspira, e enche a garrafa térmica daquela menina com o seu novo devir “Das paredes do mercado guardas essa noite infinda”.

terça-feira, 3 de abril de 2012

A FELICIDADE É SIMPLES ASSIM


O príncipe Garibalde

A princesa Gariléia


Num reino bem longe dali, vivia o belo e bom Gari.
Garibalde era o seu nome de pia e tudo o que nele se via
era bravura, coragem e boa vontade
para manter tudo bem limpo ali.
E no seu belo Reino, por outros chamado Praça Batista Campos
pegava todos os dejetos que por lá deixavam,
transformava em pó e carregava com sua pá
para bem longe daquele lugar.
Garibalde era bem feliz ali, pois que reinava
na companhia da sua Amada Gariléia.

Gariléia e Garibalde, um par de gente feliz até que...

Nem tudo nesta vida é perfeito, e isso todos nós já sabemos.
Os moradores que viviam em volta do Reino de Garibalde e Gariléia
eram quase todos, invejosos de tamanha felicidade.
E assim, se juntavam os de perto com os de longe
para despejar mais e mais dejetos dentro do Reino de Garibalde e Gariléia.
E todos os dias o bom príncipe e sua princesa
tinham que enfrentar os terríveis monstros do esquadrão das bactérias.
Eles se alojavam em todo o Reino de Garibalde e Gariléia,
no Lago de um Olho Só,
na grama ainda verde,
nos bancos feitos para sentar gente boa e gente ruim.
Mas Garibaldi e Gariléia encontraram um aliado para a luta brava continuar.
E cada vez que uma ameaça aparecia
era o um canto que se ouvia “Bem-Te-Vi sujando tudo por aqui!”
Era esse o canto de guerra do aliado de Garibalde e Gariléia
anunciando a presença de mais um inimigo para combater.

E quando chegava a noite,
o Reino todo ouvia Gariléia incansável
cantarolava para o repouso do seu Amado
a bela canção das lutas bravas dos seus dias:

Eu consolo ele / ele me consola / boto ele no colo pra ele me ninar / De repente acordo / Olho pro lado / E o danado já foi trabalhar... / Olha aí! / Olha aí! / Olha aí! / Aí o meu Gari, olha aí / Olha aí! / É o meu Gari.

P.S. Este conto foi tecido após uma vivência feita no Projeto Entreletras em 2011.
Local da vivência: Praça Batista Campos, em Belém do Pará.

sexta-feira, 23 de março de 2012

QUANDO O REI CORTOU AS TRANÇAS DE RAPUNZEL, SEPAROU A LUA E O SOL NO CÉU


Fotografia do Sol que ninguém sabe se é Lua. Ou da Lua que ninguém sabe se é o Sol.

P.S. Conto tecido durante o I Encontro de Contadores de História da Amazônia, na Oficina "Performance Poética: O Corpo Contando História"; ministrada por Adrine Motley e Dia Favacho.

Essa história é verdadeira. Ela tem personagens que saltaram de dentro do evento, quando Dia Favacho e Giselle Ribeiro se viram com a mesma blusa. E não houve desconforto, mas reconhecimento de que trazem na pele o mesmo sonho. Por isso, essa história diz assim:

Em um tempo não muito distante
viviam duas irmãs
muito unidas, muito unidas.
Gostavam quase sempre
das mesmas coisas:
ouvir e contar histórias
e de outras boas diabruras.

Um dia um rei malvado
quis torná-las desunidas
e lançou um feitiço terrível
de nunca mais poderem se encontrar.

Adeus Branca de Neve,
Gato de Botas,
Cadeira de Balanço
e Roda de Ouvintes.
Adeus amigo Grimm e Perrault.

Porque hoje, sem mais alegria,
em tempos distintos,
elas vivem com seus novos nomes
dizendo ao mundo:
- Eu sou a Noite.
- Ela é a Dia.

segunda-feira, 19 de março de 2012

COMO SE VALESSE A PENA RENASCER SEMPRE



Como se faz para chegar do outro lado do mundo sem piscar os olhos?

O senhor de negócios olhou para os lados, procurou outro alguém para responder a questão mais absurda que já lhe tinham feito no curto tempo da sua memória de felicidade. Mas não havia mais ninguém naquele espaço de assombramentos. Então pensou em se atirar ao mar e se ver livre do que lhe parecia estranho: uma menina cheia de fantasias.

A menina insiste:

Moço, quero ir da minha idade ver a idade do seu tempo para plantar flores de companhia no jardim da sua solidão. O senhor me parece bem sozinho!

Desarmou o homem que agora relembrava o seu passado bem remoto. Parecia que a menina encostava duas pedras no raciocínio daquele homem e dali tirava faiscação de uma felicidade que ele nem mais sabia que cheiro tinha.

Respirou fundo, abraçou o retrato falante da menina e, desde então, se viu pronto para chegar do outro lado do mundo sem piscar os olhos.

P.S. Texto escrito em 05 de janeiro de 2012, aniversário da contadora e encantadora de histórias Cléo Busatto. Mas imaginemos que amanhã, bem cedo nascerá mais uma vez Cléo Busatto para soprar em nossos ouvidos tantas histórias, porque amanhã, caro leitor, dia 20 de março é o Dia Internacional do Contador de Histórias.
Obrigada Cléo Busatto, minha Flor de Formosura, por iluminar o meu caminho profissional.

quarta-feira, 14 de março de 2012

APRENDI A EMPINAR POESIA



Outro dia fui à praia.
Não porque gosto de sol e multidão.
Fui à praia vender poesia.

É claro que ninguém comprou ou gostou do produto que eu vendia.

Botei meus versos no chapéu, porque moeda ali não caía.
E devolvi para a minha cabeça meus pensamentos poéticos.

Da próxima vez, vou fazer diferente:
Vou à praia empinar meus versos com fio dental.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

ECOS DA VALSA N° 6


Veja o vídeo e siga as pistas do texto

Feche os olhos por alguns poucos minutos. Talvez um minuto. Talvez dois minutos. Ou talvez alguns segundos sejam suficientes para você se ver dançando bem no meio da sua sala de estar. Sala de estar triste. Sala de estar alegre. Sala de estar mornamente instalado na sua vida. Ou melhor, sala de estar com a vida fervendo de grandes e boas emoções. Sala de estar louca.

Eu, por mim, posso lhes contar que pousei, na madrugada do último dia vinte e cinco, no aeroporto internacional de Belém já saudosa de tantas expressões de arte, de tantos rostos simpáticos me desejando bom dia antes de dar qualquer informação turística. Entrei em Belém leve, bem mais leve dos problemas locais. Mas antes, na introdução local, o problema climático já me situava o lugar de entrada: Srs. passageiros teremos que sobrevoar a cidade por mais quinze minutos. Por problemas climáticos não obtivemos permissão de pouso. Pronto, essa é a cidade que eu moro. A leveza adquirida em tempos de férias pede para ser peso.

Foi então que pensei em Sônia, personagem da Valsa n° 6, de Nelson Rodrigues:

“SÔNIA (aumentando progressivamente a voz, até ao grito) - Sônia!... Sônia!... Sônia!...
(para si mesma) Quem é Sônia?... E onde está Sônia? (rápida e medrosa) Sônia está
aqui, ali, em toda a parte!(recua) Sônia, sempre Sônia...(baixo) Um rosto me
acompanha... E um vestido... E a roupa de baixo...”

A peça é intimista. Uma conversa pessoal da personagem Sônia com ela mesma e o desespero de não querer ser louca, a primeira louca da família:

“O vestido que me persegue...
De quem será, meu Deus?(corre, ágil, para a boca de cena. Atitude polêmica) Mas eu não estou louca! (lá cordial) Evidente, natural!... Até, pelo contrário, sempre tive medo de gente doida!(amável e informativa, para a platéia) Na minha família, e graças a Deus, nunca houve um caso de loucura...(grita, exultante) Parente doido, não tenho!
(sem exaltação, humilde e ingênua) Só não sei o que estou fazendo aqui... (olhando em
torno) Nem sei que lugar é este. (recua, espantada; aperta o rosto entre as mãos)Tem
gente me olhando!(olha para os lados e para o alto. Lamento maior) Meu Deus, porque existem tantos olhos no mundo?”

Sônia, neste momento eu também não desejaria saber quem eu sou ou para onde eu vou. Queria mesmo era me situar na sala de estar louca de desejo de retornar à cidade de São Paulo. Seguir até a Av. Paulista com destino certo: Casa das Rosas e lá, ver Sônia com o meu rosto lindamente louco, estampado e iluminando a vida naquela Casa das Rosas.

P.S. Para os leitores que moram em São Paulo, vai a dica: Valsa n° 6, de Nelson Rodrigues com a envolvente interpretação da atriz Ligia Paula Machado, na Casa das Rosas. A peça estará em cartaz até abril. Eu se fosse você, ou até se fosse eu mesma morando em São Paulo, iria ver mais umas vezes Valsa n° 6, na Casa das Rosas. A entrada é só R$30,00 e o prazer da arte vale muito mais.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

QUANTOS OLHARES PARA O MESMO LUGAR?

DOIS OLHARES PARA OS MESMO LUGAR EM TEMPOS DIFERENTES. VISTA NOTURNA E DIURNA DA AV. SÃO JOÃO




Para onde vai com tanta pressa?

Vou para o lado da alegria. Vou para a estação da Luz. Vou ver o Tatuapé. Vou atrás de Consolação. Me deixe ir assim, com pressa ou mesmo na calmaria, porque São Paulo me atravessa com sua Liberdade e vontade de crescer mais para onde eu nem sei. É carnaval e aqui tem bloco de todos os amores, amores compreendidos e amores antes incompreendidos. Vejo tranqüilidade também por onde passo e em seguida vem o bloco dos destemidos que passam sem deixar maiores danos.

É no 17° andar do hotel Fórmula 1 que eu moro, por esses dias, é do meu apartamento, no 17° andar, na Avenida São João, que eu bebo São Paulo como quem bebe água natural, para não querer, tão logo, matar a sede que tenho dessa cidade.

Mas eu vou ter que voltar para o lado de lá.
Então posso dizer:
Sei que os sonhos são finitos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

DAS LIÇÕES DO BEM VIVER


Foto feita em fevereiro de 2012, no Templo Budista, em Foz do Iguaçu

“Jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor." Palavras de Buda.

Em um tempo, não muito distante, eu aprendi do que era feita a composição humana. E quando mais eu entendia o assunto, mais uma Paz enorme se acomodava dentro de mim.
Mas eu não entendia, ou melhor, não sabia explicar com clareza o que dentro de mim ocorria. Eu sei dizer que reaprendi algumas lições do bem viver. Para essa lição, a mim foi ensinado, cantar um mantra: “Deus é amor, eu sou amor”. Mantra é uma sílaba ou poema religioso normalmente em sânscrito. Os mantras originaram do hinduísmo e são utilizados também no budismo, são entoados como orações, repetidas como as do cristianismo. E se você me perguntar se funciona, eu posso garantir que comigo funciona perfeitamente. Hoje vejo todos os rostos do amor e aprendi a exercitar o amor sem amarras, o amor sem ciúmes, o amor sem posse, o amor que respeita o outro e seus limites. Hoje sei de um amor em liberdade e totalmente do bem. Por isso, disse anteriormente que aprendi a lição do bem viver e essa lição a mim foi ensinada pela prática da Yoga com a Profa. Patrícia Almeida, além de aprender a manter contato íntimo comigo através da terapia, exercitada com a Dra. Sâmia Rodrigues.

Por tudo isso, chegou o tempo de saber que eu cresci emocionalmente.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

QUE GOSTO TEM ESSA FATIA DO PÃO?


A ordem da leitura não altera o prazer. Veja o vídeo e leia o texto ou leia o texto e veja o vídeo.

São Paulo, 08 de fevereiro de 2012

Sou uma mulher comprometida com a minha palavra...

Disso eu tenho certeza. E foi por isso que lembrei de ter lhes prometido dividir o meu pão com vocês... E estando hoje, bem no coração da grande São Paulo, depois de revisitar o Museu da Língua Portuguesa ainda ouço a voz de Oswald de Andrade, poeta homenageado insistindo em anunciar:

“Aprendi com meu filho de dez anos
Que poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi.”

E eu que acredito nestes versos, posso afirmar que meus alunos também descobrem esses segredos sempre que reaprendem a ler com os textos poéticos.

E por tudo isso, acreditamos em Mário Quintana:

“Quem faz um poema salva um afogado”

Afinal, a literatura serve também para isso, para nos tornar descrentes do que aprendemos e desejosos de novos saberes.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

REPARTIR O PÃO


Veja o filme e leia o texto ou faça isso no avesso do que proponho.

Vamos lá. Eu nem sabia que a literatura transformava tanto e tanto a visão parada, em Criatividade Viva, Pulsante.

Foi assim a minha passagem de professora de língua francesa, para professora de literatura francesa e posteriormente, para professora de Teoria do Texto Poético. Mas viver só de teoria é ter vida solitária e pensante. Pensar é bom, mas agir é também necessário. E foi então que eu acordei um desejo que vivia em mim, o desejo de gerar o prazer do texto dentro dos meus alunos também.

E decidi dividir o pão que eu como com você, caro leitor.

Vou dividir o meu pão, vou mostrar para você, que agora me lê, alguns momentos de prazer poético experimentados por mim, em parceria com meus bravos alunos na Universidade Federal do Pará.

E essa é apenas a primeira fatia do meu pão.

Esse é um pão caseiro, que só se aprende fazendo!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

APETITE VORAZ DE ALEGRIA



Palhaço ou omino di paglia, ou também homem de palha, ou... ou... Para minha infância os nomes tantos não tinham lá essa importância, o que me valia era saber que eles vinham sempre de mansinho e afugentavam as nossas tristezas tantas. Pelo menos nos circos, eles eram os iluminados, aqueles que levantavam todo o pó de alegria de qualquer gesto da platéia ou deles mesmos.

Passei então a nomeá-los: Espantalhos das desalegrias.

Desalegria é uma palavra indicionarizada, aliás essa última palavra também é, porque se procuradas no dicionário, ninguém vai encontrá-las. Eu acho muito legal essa história de renomear as coisas. O Marcelo Marmelo Martelo, por exemplo, é o meu herói favorito nas batalhas das coisas e seus nomes. Mas eu vim aqui hoje mesmo foi para falar dos Espantalhos das desalegrias. Eu conheço uma mulher que é mestre neste ofício e ela tem leveza suficiente para saber derrubar umas pontinhas de tristeza que às vezes pensam nos derrotar... Eu acho que ela come muito Feijão para poder se manter firme no ofício de Espantalha das desalegrias. Uma vez, ela se apresentou com o nome de Angélique e junto com a sua trupe espremeu humor do que se dizia arte, dita na voz de Molière Le malade imaginaire e na voz d’Os Palhaços Trovadores: O hipocondríaco.

Eu só sei que quem estava triste naquele teatro, desaprendeu de estar, porque um exército os Espantalhos das desalegrias andava por lá contando a história de um homem que pensava estar sempre doente e era louco por remédios.

Para espremer humor de dor é preciso ser Palhaça, ser Espantalha das desalegrias, ser Angélique, ser Suani Corrêa. E isso é tudo o que sei!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

INVERSO ou MUDANÇA DE PELE

professora Giselle Ribeiro e alunas na Universidade Federal do Pará

MUDANÇA DE PELE: Agora escritora Giselle Ribeiro entrevista Professora Giselle Ribeiro.

Escritora: Para você que é Professora de Teoria Literária, o que seria ensinar literatura em um país de poucos leitores?

Professora: Para esta pergunta, meu coração se mantém na linha de frente com o que acredito fortemente: é preciso, antes de tudo, fazer acordar o que Roland Barthes chama de Prazer do Texto.

Escritora: Então, para você é possível virar o jogo e fazer uma população teleguiada voltar a virar página por página na busca das próximas linhas de um livro?

Professora: Tudo que dorme, poderá um dia acordar. E se essa população, da qual você fala, passou por um momento de encantamento, um momento de aprender a decifrar códigos, enigmas, signos como um investigador apaixonado pelo seu ofício, como uma bordadeira que cantarola toda vez que a linha encontra o tecido e nasce uma imagem nova, e se esse momento foi sedado pela velocidade do tempo presente, esse passado, guardado e adormecido há de ter o seu tempo de abrir os olhos e espreguiçar...

Escritora: Você acredita, de verdade, no que acabou de dizer?

Professora: Acredito. Por isso me apaixono cada vez que um aluno se diz:

- É isso que eu quero para mim. Agora eu quero a literatura na minha vida.

É esse o tempo de fazer acordar o prazer do texto. E eu já vi alunos entrarem nas minhas disciplinas achando que eu era louca e depois eles se descobrem também loucos pela literatura e fazendo literatura...

ESCRITORA: Então como é a sua relação com os seus alunos?

PROFESSORA: Há um espaço certo para nós: eu sou professora e eles meus alunos e disso nós não podemos escapar. Dentro da sala de aula eu sou a professora e ser professora para mim pede muito mais que só ensinar teorias, ser professora pede o ensinamento de ser Gente, Ser Humano. É reconhecer que se pode seguir amando o que se faz. Eu amo minha profissão e bem no colo dessa minha profissão eu embalo meus alunos. Para eles eu tenho um amor, um amor que não pode ser confundido com outra coisa que não seja respeito, admiração e vontade de vê-los crescer como Gente, crescer sem ferir ninguém. Esse é o melhor dos ensinamentos que nós, professores podemos dar aos nossos alunos, os outros ensinamentos são só os fios desta teia.

ESCRITORA: Para você a teoria literária contribui para a escrita literária? Em que sentido isso pode ocorrer?

PROFESSORA: Eu já tive alunos que perceberam o enlace da teoria e da prática literária, mas também já tive alunos que se rebelaram e me perguntaram:

- Para que toda essa teoria? Esses teóricos não sabem de nada, quem sabe é o escritor. É ele que faz o acontecer da literatura.

Os que se rebelaram, desapareceram da turma, preferiram se negar a aproximação do entendimento. Devem ainda estar adormecidos. Mas os que atingiram os dois estados: o fazer literatura e o pensar a literatura, descobriram que a teoria, às vezes, traz para a literatura contribuições que podem ter sido despercebidas pelo seu autor, e, às vezes, pelos leitores. Mas a iluminura mesmo acontece quando deixamos agir de fato, a produção literária e assim poderemos ver acontecer a teoria ou tão simplesmente contestá-la.

ESCRITORA: Um verso para os que passaram pela sua vida profissional e aos que ainda virão:

PROFESSORA: Para os que passaram, os que escaparam e os que virão, eu diria que as dificuldades são só convites para sermos melhores. E para eles, tomo emprestado um verso do livro Arranjos Para Assobio, do Manoel de Barros:

“Alegria é apanhar caracóis nas paredes bichadas”

domingo, 15 de janeiro de 2012

NO COMEÇO ERA O VERBO, SEM CONJUGAÇÃO



- Filha, tu nunca mais foste à igreja.

Disse minha mãe em um desses dias que estamos impossíveis aos olhos dos outros. Minha mãe acha que ter uma religião é ir à igreja procurar Deus e que a igreja cura as nossas doenças exteriores e interiores. Minha mãe leu a Bíblia em mergulhos rasos, mas não leu Psicologia e Religião Oriental de Carl Gustav Jung. Minha mãe nunca praticou Yoga. Minha mãe não sabe que minha tristeza desaguou para outros rios quando descobri que a minha religião é Deus e que a eu estou bem dentro do nome dele. É só olhar para o nome dele e lá estou eu. DEUS nunca mais se viu longe de mim, tampouco eu ignoro que estou com ele. Não sei dizer ao certo como reaprendi a ler o nome dele, mas sei que quase todos procuram por ele do lado de fora. E talvez por isso, conhecem dores mais agudas, tristezas quase infindáveis e as suas curas têm prazo curto de validade. Um dia desses me dei conta do longo tempo que a tristeza não mais me visita com seus dias marcados sem me avisar, e pensei:

Teria ela perdido meu calendário e o mapa da minha casa?

E me olhando como quem já quase se conhece por inteira, descobri em mim uma leveza, uma luz até mesmo nos cantos onde havia sombra... Dentro de mim agora tem luz com energia solar e lunar. Quer dizer, não há mais freqüência da escuridão dentro de mim. E assim eu descobri que sabia ler o nome de Deus pelo avesso.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O SOM DO VAZIO



(para ler ouvindo "As Montanhas" - de Madredeus)

Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem desassossega da espera pelo leitor e faz vigília dia e noite, noite e dia. A mãe se inquieta:

Filho não te acomode no terraço frio. Entra. Eles não mais virão te buscar esta noite.
Quando eles vinham, lembra? Eles assobiavam como se quisessem espantar a sombra dos medos de dentro deles, e eram tantos. Um exército inteiro soprando cantigas nunca dantes ouvidas, porque nunca também inventadas. Filho, o som que tu ouves não são os medos deles, são os pífaros de Madredeus no alto d’As Montanhas nos chamando para subir. Beija a mão da noite que te acolhe e entra. Vamos dormir filho?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UM EU PLURAL



PROFESSORA GISELLE RIBEIRO ENTREVISTA ESCRITORA GISELLE RIBEIRO

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: É possível definir poesia ou para você definir poesia é crime?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Encontrar uma ÚNICA definição para a poesia é crime. Uma das coisas que a poesia pode ser, uma casa sonora. Ela é uma grande casa com uma numerosa família habitando seus compartimentos. E cada vez que a família, moradora desta casa, se movimenta a poesia se alarga para caber toda nela. Eu aposto na poesia como uma grande casa sonora porque sei que todas as portas desta casa se permitem abrir pelos seus moradores e fazer deles seus moradores mais fieis. E eles são fiéis porque foram encantados pela casa sonora. A encantação começa quando o leitor se permite ouvir todas as vozes, todos os sons que a poesia tem para ele. Outra coisa que a poesia pode ser, um guarda-roupa cheio de peças para serem usadas em todas as estações do ano, ou todas as estações do seu tempo emocional: em dias de tristeza ou alegria pura tem poesia certa para vestir. Então entre neste guarda-roupa e experimente o que melhor lhe couber em cada dia do ano.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: Como acontece a criação literária para você que é poeta, com três livros já publicados?

ESCRITORA GISDELLE RIBEIRO: A criação literária pode acontecer como um espirro que lança estrelas para fora do escritor. Depois disso dito, podemos imaginar um espaço escuro que pouco, bem pouco se pode ver e, de repente acontece uma invasão de vaga-lumes. Pequenos pontos acendendo e apagando... Acendendo e apagando... Acendendo e apagando... E que dão clareza e ao mesmo tempo escondem clareza do leitor para torná-lo receptor ativo, aquele que terá vontade de acender esses vaga-lumes para saber o que estaria por trás daquela escuridão. Os três livros que eu publiquei, têm histórias diferentes e parecidas, ao mesmo tempo. O processo de criação literária é uma coisa surpreendente, pode ser um momento duradouro para atingir a maturidade poética, o tempo certo do nascer para o mundo. Mas pode ser também um espirro lançando estrelas para o espaço do leitor.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: Objeto Perdido. Esse é o nome do seu primeiro livro, qual o caminho trilhado para se chegar ao título de um livro?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Às vezes o que dura mais tempo para nascer é o título de uma obra de arte. Foi assim com o Objeto Perdido. Quando o livro já tinha a formação quase total do seu corpo, a cabeça pediu para ser gerada. E foi em 1997 que recebi uma carta vinda de Paris. Minha amiga e psicóloga Léa Sales estava fazendo um curso em Paris e me mandou de presente uma carta recheada de possibilidades de pensar o título do livro. Na carta eu encontrava explicação freudiana para os nossos conflitos e estava ali o segredo para o título do livro. Por isso o trecho desta carta aparece na contracapa do livro.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: E 69 durou muito tempo para o título ou a cabeça do livro também nascer?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Eu confesso que não me sinto muito confortável para tratar da pele dos meus livros. A mim sempre parece que o livro quer e deve falar por si. Há leitores que desejam comprar o 69 só pelo título, sem fazer uma leitura proposta desde a capa, melhor dizer, da coluna vertebral do livro. Antes mesmo de abrir o livro, ele já anuncia o que tem dentro dele. A viagem deve começar desde o momento da embarcação.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem, esse é o título do seu terceiro livro lançado na XV Feira Pan-Amazônica do Livro e parece querer lançar uma nova moda. É isso?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Eu não digo que é a nova moda, mas uma moda antiga que quer retomar o seu lugar. Houve um tempo, nós o perdemos, em que se ouviam histórias antes da noite tomar velocidade e se transformar em dia. Era o tempo em que a eletricidade não violentava a nossa imaginação, o tempo que se ouvia histórias e se lia também muitas histórias como se elas fossem parte de nós. Era como se abríssemos o guarda-roupa e descobríssemos a roupa como pele nossa. Então, tomávamos emprestados os textos acreditando que naquele momento mágico, o texto nos pertencia e nós pertencíamos a ele. E havia cumplicidade!

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: O que você diria para a geração que tem sido violentada pela descoberta da eletricidade?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Às vezes, é preciso apagar a lua para se ver melhor.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

FALANDO DE ENCANTAÇÃO

Minha família de prática poética e eu literaturando para ela:




“Eu te conheço até o osso por intermédio de uma encantação que vem de mim para ti”

Eu hoje começo essa conversa, caro leitor, com uma fala da mãe das palavras sábias, Clarice Lispector. E isso tudo só para falar de uma coisa tão na moda nos dias de hoje: adesivos de família colados na lataria dos automóveis. E eu que sou um tanto “crazy”, que tenho carro, mas não dirijo, que conheço a moda, mas não me prendo nela, não do jeito que todos fazem. Eu prefiro andar na direção inversa, enquanto todos colam sua família biológica nos seus carros do ano, eu, crazymente, decido colar na minha pele a minha família de prática poética.
Ela é composta de pessoas do bem, escolhidas pelo meu coração e pelo meu detector de pessoas dispostas a se abrirem para o entendimento do mundo, da vida e de tudo o que a literatura pode nos oferecer.
Minha família de prática poética é composta de pessoas escolhidas pelo que são:

Adriana Cruz, minha contadora de histórias, que deve ter guardada em seu coração mil e uma histórias para manter acordado o mundo inteiro, se o mundo inteiro quisesse ouvir;

Alana Lima, que tem ar de brabeza e delicadeza tudo ao mesmo tempo, para não nos deixar desgostar dela;

Belly Honório, que tem velocidade na voz para alcançar todos os seus sonhos. E que assim seja;

Maria do Carmo Casseb que tem os olhos sempre brilhantes quando falamos de poesia e,

Inezita Tenório, porque dentro dela tem trovoadas querendo ser chuva fina.

Você vai ver, caro leitor, que elas foram desenhadas para serem coladas não na lataria do meu automóvel, mas na minha pele, porque entre nós existe uma encantação que vem de mim para elas e delas para mim.

P.S. No adesivo a Adriana Cruz não aparece, porque não estava presente no momento da desenhação, mas se quiserem vê-la, é só olhar para a minha pele.

A ilustração que acompanha este texto foi feita por Maria do Carmo Casseb, no segundo dia do I Encontro de Contadores de Histórias da Amazônia.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

MINUTOS ANTES DO REALEJO


Apresentação do grupo Realejo - Livraria Saraiva - Belém-Pará

Sempre que vejo o barco da minha vida, me ponho a rimar... Rimar
rumo ao alto-mar, da minha vida. E ela me pede com voz mansa:

- Vamos viver só de poesia?

E eu que trago no peito uma brisa branda de muita paz, conquista dos tempos de maremotos, aceito de imediato o desafio e acendo as velas todas do barco da minha vida. Minha vida pega fogo rimando, rimando contra ou a favor da maresia e, olhando nos olhos largos da minha vida, com alegria devolvo o desafio:

- Vamos viver só de poesia?

E saímos brincando de esconde-esconde nas linhas tortas da minha vida.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

EM DIAS DE TEMPESTADE, COBERTOR DE PELE



Engenharia feita. Medidas exatas do tamanho do estrago da arrebentação. Náufragos. Todas as mentiras lançadas contra mim, serão náufragos. A paisagem era assim: minha praia de água doce invadida por ondas fortes de mentiras, falseamento da verdade, tramas. E minha jangada vinha vindo ao longe mansamente, como as esperanças tandas que tenho. Vi no meio de tanto mar, ondas de mentiras avançando vorazmente. Abri o mapa, prendi a bússola na mão esquerda e mostrei a paisagem ao meu amor.

Meu amor me disse:

- Não dê ouvido maior ao barulho dessas ondas e, lembre que durante a noite Poseidon dorme em nossa jangada e durante o dia come no nosso prato. Quando chegarmos em terra firme, desocupe o seu ar sério. Vamos ao Parque de Diversões.

Meu amor entende de nuvens que andam e sabe o que fazer com o resto de nossas vidas...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

CLÉO BUSATTO VESTE MADAME HOMERO



Um livro de poemas quando cabe perfeitamente no leitor, se enche de prazer e se diz ter nascido para isso. Foi assim com o meu Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem. Mandei o livro em um envelope acompanhado de uma carta manuscrita para Cléo Busatto e pedi à ela que abrisse aquele pequeno objeto como quem abre um guarda-roupa e se precisasse de agasalho para os dias de frio, aquele objeto lhe daria. Se precisasse de roupa leve, para os dias de verão, aquele pequeno objeto também lhe daria... E foi assim que aquele pequeno objeto chegou até a casa interior de Cléo Busatto e foi recebido com o calor fraterno dos que sabem ouvir e contar histórias.
Conheçam o depoimento de Cléo Busatto quando entrou no Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem:

“Na beira do Guajará vive uma morena que escreve versos com tinta branca e tem um sorriso que parece lua cheia. Quando recebo carta dela é uma alegria, por que vem poesia. É quando ela aumenta o volume da palavra só para fazer ruído térmico no ouvido do leitor. E leio:

MADAME HOMERO

Dei à ela uma cadeira de balanço,
uma roda de crianças
e um tabuleiro de Grimm e Perrault...

E ela me deu sua moeda mais valiosa.

Ergueu os braços como se fosse voar,
fez gestos largos como se fosse me abraçar,
e do seu coração embrasado
fez soprar histórias para ninar e acordar.

E foi assim que ela entrou na minha casa
com sua numerosa família
e todos os e noites faz nascer em mim
a Mulher-Sol e o Homem-Lua.
(p.55)

Leio, não, saboreio como se faz com fruta suculenta, vinho fino, ambrosia e outras especiarias, cada rima de Pequeno livro de poemas para vestir bem.
Com poesia assim, tem que ter gosto bom. E a palavra-imagem de Giselle Ribeiro escorre para dentro da gente, fácil, macia, ternura só. Deixa ela falar e ativar o sagrado em nós. É pra isso que existe o poeta.”

Texto gentilmente cedido e extraído do blog: http://cleobusatto.blogspot.com/2011/10/pequeno-livro-de-poemas-para-vestir-bem.html

P.S. Cléo Busatto desfila com a roupa que melhor lhe cabe, Madame Homero é um poema para Cleo Busatto, anuncia o Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem.