terça-feira, 20 de setembro de 2022

EXPERIMENTE SENTAR DE PERNAS ABERTAS

- entrevista e provocações –

 

Flúvio Penaforte, editor do Jornal Nenhum, andou disperso das pegadas da poeta Giselle Ribeiro, durante esse tempo de abstinência das suas experimentações poéticas, entre os gêneros literatura infantojuvenil e poesia para adultos, a autora estreou a escrita de uma trilogia voltada para a poesia engajada no movimento feminista.

De lá pra cá os dois livros da trilogia foram publicados: Escola para mulheres safo, 2020 e Mulheres que suspendem o recreio, 2022.

Agora, a poeta está no percurso da escrita do terceiro livro ABCdário erótico, previsto para ser lançado em março de 2023.

Na escrita desta trilogia a personagem Dina se manifestou e permanece convivendo com a poeta, entregando à ela as nuances do que cabe nessas novas publicações. As aparições da Dina, na maioria das vezes, acontecem nas madrugadas, ela acorda a poeta por volta de quatro horas da manhã e entrega os poemas num impulso tramado pelo inconsciente. Foi esse impulso que inquietou o nosso editor, trazendo novamente a poeta para o alvo dos refletores do Jornal Nenhum.

 A entrevista começa:

Flúvio: Qual o primeiro movimento feito por Dina, personagem da trilogia?

Giselle: Dina, quando se manifestou, de início já avançou como mulher feminista. Ela aparece na cena construindo a escola na qual iniciará as mulheres na revolução erótica. No primeiro poema do livro Escola para mulheres safo, ela faz a matrícula de uma das suas alunas, a mulher de juízo perdido, essa personagem não tem nome e segue assim sendo chamada propositalmente. Por não ter nome, ela caberá em todas as mulheres que quiserem experimentar a libertação do corpo. Naturalmente, a personagem senta de pernas abertas e não usa mais calcinha, enquanto espera a sua vez de ser atendida. Não há nenhuma preocupação com o que possa estar sendo visto pelos olhares externos, a mulher de juízo perdido se desprendeu das tramas da sociedade e volta sem medo para as suas origens, como se ali fosse a sua oca.

Flúvio: Então a trilogia é toda feita de provocações eróticas?

Giselle: Não. A trilogia se mescla com todas as lutas e conquistas das mulheres. Há o erotismo reclamado, mas este precisava ser descascado, se formos olhar para o passado, do mais remoto ao mais próximo, as mulheres são destituídas do desejo. Elas sempre aparecem na história do erotismo como objeto de uso masculino e são educadas para isso. Até os dias de hoje é assim. Veja como era preciso descascar esse ouro. Mas no segundo livro, Dina decretou que o erotismo deveria se recolher um pouco, porque havia demanda das outras lutas, os manifestos aparecem em luz neon: mulheres unidas contra o feminicídio, racismo e outras tantas agressões estão ali no Mulheres que suspendem o recreio, segundo livro da trilogia.

Flúvio: O terceiro livro promete a retomada do erotismo. É isso que o título propõe? Não é desconfortante sustentar essa bandeira fincada em um tempo sombrio de misoginia?

Giselle levanta da poltrona em que estava sentada, pede ao Flúvio para levantar também e mudar de lugar com ela. Ele assim o faz. Ela o instiga.

Giselle: Imagine que agora você ocupa o meu lugar no mundo. Sente-se de pernas abertas, você agora está diante de mim e sem calcinha.

Flúvio se desmonta e se remonta. Ela só o observa. Olha todos os movimentos dele fazendo-o tirar sua conclusão.

Flúvio: Você esteve recentemente no circuito literário de São Paulo para o lançamento do livro Língua febril, escrito pela poeta Beth Brait, uma publicação da editora Penalux. Soube também que você fez o prefácio e na hora de fazer a sua apresentação a poeta pronunciou sonoramente que você é um dos grandes nomes da poesia erótica e lésbica. Qual foi sua reação? Sonorizar em público o gênero literário que você escreve, traz algum desconforto?

Giselle: Se uma roupa estiver apertada, me incomodando, eu tenho três alternativas: 1. antes de sair com ela devo levá-la ao ateliê de costura para fazer os ajustes, 2. devolver o produto à loja, 3. retirar a roupa e fazer uma doação. Nas três possibilidades eu teria que me deslocar para retirar a roupa do meu corpo dando a ela outro destino. Quem esteve no lançamento do livro Língua febril, percebeu que eu permaneci no local com o mesmo frescor de quem sabe ao que veio.

Flúvio pisca o olho esquerdo e diz com voz baixa:                                                        

Nenhuma luta te sufoca mulher. Eu ainda te reconheço pelo hálito!

Eles sorriem juntos. Ela espera que ele beba o chá de hibisco na sala de não estar.

 

 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018


MANIFESTO D'O MENINO QUE ESPIAVA PARA DENTRO

O livro "O menino que espiava para dentro", escrito por Ana Maria Machado  vem sofrendo grandes críticas de alguns "leitores". O argumento não convence de forma alguma quem tem vivência nas profundezas do sentido do verbo Ler. Em nome da incompreensão criada pelo livro surge o Manifesto d'O menino que espiava para dentro e com ele o convite para que o livro seja lido em voz alta, nas praças, ruas, escolas, em todas as escadarias do encantamento.
Boa leitura a todos e a todas.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

CONVERSA PARA BOI ACORDAR
(Entrevista com Flúvio Penaforte, editor do Jornal Nenhum)
Poesia para adultos. Poesia para a infância. Contadora de Histórias para adultos e para a infância. Inventora de brinquedos poéticos. Poeta frequentante de Saraus. Mulher. Filha. Amante. Irmã. E coisas e tal. Afinal quem é Giselle Ribeiro?
- Um espirro solto dentro de um coletivo em dia de chuva. Sabe, quando o transporte está todo fechado, abafado e o espirro se espalha pra todo lado. Sou eu. Eu sou um espirro grudante e indesejado para as coisas muito certas.
Hoje mesmo eu li uma mensagem no whats app, me dizendo que eu sou pervertida. Fui ver Pervertida no dicionário:
2. transitivo direto
efetuar alteração em; mudar.
Gostei disso, eu sou pervertida. Eu quero efetuar alteração nas cabeças. Eu quero mudar os conceitos de lugar. Apagá-los, talvez.
Ouvi dizer que teu 2018 tem promessas...
- Eu não sei, não frequento mais igrejas.
Você parece sempre esconder o jogo...
- Eu não jogo. Não na vida, só na poesia. Quanto ao que dizem, você tem sessenta e nove chance de erros. Estou querendo dizer que vem outro livro de poemas eróticos por ai. Um livro que foi premiado. Para a minha surpresa, porque erotismo e voz de mulher é uma questão de não rimar, nem remar nesse nosso mundo feito para os machos. Então, acho que avançamos um passo, um tímido passo. Digo isso porque sempre que vou a um sarau e solto o verso envenenado do amor, tem sempre um achando que eu estou querendo comer alguém, mas eu falo pela voz de muitas. Eu sou muitas. Eu sou o silêncio quebrando o vidro de algum copo de azeitona. Copo de azeitona é bem mais resistente que cristal. Mulheres não são cristal.
Mulheres não são cristal. Você reafirma que é muito mais que uma e eu também ouço falar por aí que você vai publicar um livro infantil? Que faz oficina de brinquedos poéticos para adultos e crianças? Quantas vivem em você afinal?
- Agora eu sou essa que te fala sem poesia. Sou também aquela que não trama uma invenção maior, querendo só ficar quieta no meu canto, até você bater à minha porta para me cutucar. Sr. Penaforte hoje eu deveria não falar com ninguém! Mas já que eu abri a porta... Devo estar nas prateleiras com o Livro ilustrado de poemas desbocados (para adultos) e vou estar em uma nova aparição com um livro infanto-juvenil: A princesa sem dons para tamanha felicidade, pela editora Paka Tatu. Isso porque tenho um bocado de gente me habitando, querendo falar e eu deixo elas e eles terem o direito do dizer de si. Mas é só isso, porque eu sou eu e, boi não lambe.
Você acredita em inspiração?
- Eu acredito em inspiração, tanto quanto em transpiração. Porque escrever poeticamente, para mim, é isso. A gente inspira as coisas todas e depois transpira, joga para fora só uma parte dessa coisa toda. Entende? Alguém me disse que não conseguia mais escrever, já fazia um bom tempo e estava angustiada. Eu fiquei pensando nas nossas experiências com a escrita poética. Achamos que podemos determinar o dia, o tempo. Às vezes dá certo, mas nem sempre. Por uma questão simples, poesia às vezes é hemorragia, às vezes só um acidente vascular, chega de surpresa e é morte certa. É quando ela diz: Aqui quem manda sou eu.
Agora Flúvio, vamos tomar um chá? Cansei de falar.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

ISTO EXPLICA


ISTO EXPLICA
Adriane Garcia, p. 23 do livro O nome do mundo, 2014
Não fui a menina dos undergrounds
Das agitações noturnas...
Das leituras insólitas
Dos dionisíacos saraus
Meu campus era o campo
Onde eu cavoucava batatas
E ficava feliz, se raro, era doce
Vivi na terra vermelha
Sem xampu, mamãe tentava
Alisar-me os cabelos
Ver se ficava branca
Eu parecia
Mas havia um banzo

Negra acima de tudo
A alma
Por sorte aprendi a ler
E consegui decifrar as placas
No navio
Cheguei atrasada
Uns mil anos
Para a aula
Sobre Rimbaud.


(resolvi postar hoje esse poema, porque acho saudade um bicho roedor e vim protestar a ausência desta poeta no face book. Aquele espaço precisa de pessoas criativas, sensíveis e inteligentes, na medida do possível e às vezes do impossível.) Pronto. Recado dado.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Livro para ler na Páscoa



Giselle Ribeiro que livro indicar para ler na Semana Santa? 

- A semana não é santa se fazemos da nossa mesa um mar morto. O bom seria sair para nadar entre peixes e sereias. Em vez disso, amolamos o anzol, fiamos a rede e dos 365 dias tiramos apenas uma semana para nos tornarmos santos. Santos que mastigam pedaços do mar, um novo batismo, pensam todos. 

E o livro? 

- Eu ia chegar nele, mas você seguiu pelo atalho. É preciso nadar entre peixes e sereias, foi o que disse antes do atalho.  E se você me provocou eu digo que os bons livros não sobrevivem só uma semana... E seguindo a tradição é bom fazer um retiro e ficar Só com peixes. Uma publicação linda da Confraria do vento. O livro tem cheiro de peixe vivo e água de toda sorte. Adriane Garcia nos prende na sua rede até o último gole do mar, do rio conduzidos por um cardume de Aruanã, Curimatã e Matrinchã até avistarmos o farol.  

Giselle Ribeiro se fosse para estar em uma ilha deserta quem escolheria para estar com você na ilha? Algum nome especial ou preferiria estar só? 

- Só, com peixes. 

Mas o que comer nessa ilha? Alguma carne vermelha para acompanhar a salada? Você gosta de salada como? 

- Só com peixes. 

Pra você antes só do que mal acompanhada? É isso? Você prefere estar só? 

- Só, com peixes. 

Um poema para finalizar? 

- o poema não finaliza. Ele existe para pororocar em nós. Então eu proponho um leve empurrão para dentro do livro Só, com peixes da Adriane Garcia: 

AFÃ DE OUTROS ABSURDOS 

Dê-me estes peixes todos
Entrarão vivos em mim
Rápido os peixes os peixes!
Feito luzes me acenderão
Acenderei para o céu
Feito um cristo
Quero fugir alaranjada
Estou urgente ávida
De um sonho.

Adriane Garcia, Só, com peixes, p.77, 2015.

 

 

 


terça-feira, 28 de março de 2017

Página de Jornal Nenhum

    Entrevista do Jornal Nenhum com a poeta Giselle Ribeiro:
Você tem um livro publicado chamado “69” e vai lançar outro no mesmo gênero. Como é escrever para adultos?
- É com caneta. É com papel. Às vezes no computador; Às vezes com celular. Às vezes na areia. Não tem segredo maior que se despir de algumas amarras e mandar ver. Assim como se escreve os outros gêneros. É preciso compreender que o amor é natural, nos alertou Drummond, naquele livro em nada proibido.
Como você se tornou desbocada?
- Talvez eu não tenha chorado quando nasci e, quem sabe, me deram um tapa na boca e eu desboquei. Há quem diga que eu engoli o capeta. Que eu sou uma vergonha. Que eu não deveria ser convidada para palestrar. Que eu só falo disso. Mas eu falo. Não me calo. E falo de outras coisas também, da mesma grandeza. Falo de viagens em aspiral no “Isso não é um livro. Isso é um caracol” (2014). Neste livro vou me arrastando pelos nossos escombros e derrubando muros.
Ele também tem poemas eróticos?
- Eu já disse que não me calo. Então se no meio de outro gênero, esse aparecer, ele vai dar a sua cara para ser beijada e não mais para baterem. É preciso entender que o amor é natural e que ele aprece em algumas curvas da nossa história.  
Então você se considera uma pervertida?
- Naturalmente.
Fecham as cortinas. A poeta levanta, pega água para beber. Bebe e lava a alma.
Finda a entrevista sem revelar mais sobre o próximo livro de poemas eróticos. Mas sabemos que já está quase concluído.
 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

OUTUBRO ou NADA


          Tiro os óculos para ver pouco. Mas o coração também sabe enxergar. E, para isso, fuga não há. Tapo os ouvidos para não escutar. Mas o coração ouve até mesmo o que se pensou pronunciar.
          E atravessa outubro dentro de mim com o mesmo tempero de tantos outros outubros: pouco sal, quase nada de sabor.

          Vai tristeza festejar o mês vindouro que eu fico por aqui, sentada na porta do céu, esperando a Santa dos infelizes fazer a sua romaria da partida. Vou segui-la, me agarrar no seu manto, protestar, implorar que ela nunca mais volte, vou me fazer de pobre coitada, desejosa de mudança. E se nada disso resolver, vou afundar o meu navio ou quem sabe aprender a nadar?

O ANTIPENSADOR                    

Meu navio está afundando
e eu quero ficar de olhos extraordinariamente
grudados nesta paisagem.

Talvez aprenda a nadar.
Talvez aprenda a morrer.

                  Goselle  Ribeiro, outubro, 2014

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O DIA EM QUE EU ENGOLI UMA CHAVE

          Se eu fosse um alfinete, não ajudaria muito, ou quase nada, não ajudaria em nada. Talvez perfurasse a barriga e as palavras sairiam dela escorrendo sem multiplicar os seus significados. Talvez pouca coisa acontecesse nesse globo cheio de água em que eu me vejo agora.
          Disse a chave, um pouco pensativa das suas tarefas ali, no ambiente novo a percorrer.
         Agora, no caminho do laboratório: ultrassonografia, identificar objeto, reconhecê-lo e retirá-lo da barriga. Aproximação da gestação.
         “O filho que não fiz / fez-se por si mesmo” pensa Giselle Ribeiro e se diz esses versos do Drummond. E ela grita, quase silenciosamente para a mãe:
          − Mãe, engoli uma chave e ela abriu a porta para passarem 69 poemas eróticos. Será que já está próximo o dia da minha morte, minha mãe?
         − Possivelmente, minha filha. Nos próximos dias, você terá umas respirações ofegantes, uns arrepios, talvez suores e uns gemidos acompanharão essa hora.  A hora exata da sua “petite mort”. E assim, todos os que se aproximarem destas 69 páginas também viverão o modo francês de gozar a vida.
          E o amor abrirá novas portas.
 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

7 DIAS SEMPRE RENOVÁVEIS PARA O ESCRITOR

Não. Não compramos em loja alguma um único dia para o escritor. A escrita escolhe o dia, o escritor apenas denuncia essa escrita.



- É possível definir poesia ou para você definir poesia é crime?

- Encontrar uma ÚNICA definição para a poesia é crime. Uma das coisas que a poesia pode ser, uma casa sonora. Ela é uma grande casa com uma numerosa família habitando seus compartimentos. E cada vez que a família, moradora desta casa, se movimenta a poesia se alarga para caber toda nela. Eu aposto na poesia como uma grande casa sonora porque sei que todas as portas desta casa se permitem abrir pelos seus moradores e fazer deles seus moradores mais fiéis. E eles são fiéis porque foram encantados pela casa sonora. A encantação começa quando o leitor se permite ouvir todas as vozes, todos os sons que a poesia tem para ele. Outra coisa que a poesia pode ser, um guarda-roupa cheio de peças para serem usadas em todas as estações do ano, ou todas as estações do seu tempo emocional: em dias de tristeza ou alegria pura tem poesia certa para vestir. Então entre neste guarda-roupa e experimente o que melhor lhe couber em cada dia do ano.

- Como acontece a criação literária para você que é poeta, com quatro livros já publicados?

- A criação literária pode acontecer como um espirro que lança estrelas para fora do escritor. Depois do dito, podemos imaginar um espaço escuro que pouco, bem pouco se pode ver e, de repente acontece uma invasão de vaga-lumes. Pequenos pontos acendendo e apagando e que dão clareza e ao mesmo tempo escondem clareza do leitor para torná-lo receptor ativo, aquele que terá vontade de acender esses vaga-lumes para saber o que estaria por trás daquela escuridão. Quanto aos três livros que eu publiquei, eles tem histórias diferentes e parecidas, ao mesmo tempo. O processo de criação literária é uma coisa surpreendente, pode ser um momento duradouro para atingir a maturidade poética, o tempo certo do nascer para o mundo. Mas pode ser também um espirro lançando estrelas para o espaço do leitor.

- Objeto Perdido. Esse é o nome do seu primeiro livro, qual o caminho trilhado para se chegar ao título de um livro?

- Às vezes o que dura mais tempo para nascer é o título de um livro, de um objeto que virou arte. Foi assim com o Objeto Perdido. Quando o livro já tinha a formação quase total do seu corpo, a cabeça pediu para ser gerada. E foi em 1997 que recebi uma carta vinda de Paris. Minha amiga e psicóloga Léa Sales estava fazendo um curso em Paris e me mandou de presente uma carta recheada de possibilidades de pensar o título do livro. Na carta eu encontrava explicação freudiana para os nossos conflitos e estava ali o segredo para o título do livro. Por isso o trecho desta carta aparece na contracapa do livro.

- E 69 durou muito tempo para o título ou a cabeça do livro também nascer?

- Eu confesso que não me sinto muito confortável para tratar da pele dos meus livros. A mim sempre parece que o livro quer e deve falar por si. Há leitores que desejam comprar o 69 só pelo título, sem fazer uma leitura proposta desde a capa, melhor dizer, da coluna vertebral do livro. Antes mesmo de abrir o livro, ele já anuncia o que tem dentro dele. A viagem deve começar desde o momento da embarcação.

- Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem, esse é o título do seu terceiro livro lançado na XV Feira Pan-Amazônica do Livro e parece querer lançar uma nova moda. É isso?

- Eu não digo que é a nova moda, mas uma moda antiga que quer retomar o seu lugar. Houve um tempo, nós o perdemos, em que ouvíamos histórias antes da noite tomar velocidade e se transformar dia. Era o tempo em que a eletricidade não violentava a nossa imaginação, o tempo que se ouvia histórias e se lia também muitas histórias como se elas fossem parte de nós. Era como se abríssemos o guarda-roupa e descobríssemos a roupa como pele nossa. Então, tomávamos emprestados os textos acreditando que naquele momento mágico, o texto nos pertencia e nós pertencíamos a ele. E havia cumplicidade!


- O que você diria para a geração que tem sido violentada pela descoberta da eletricidade?

- Às vezes, é preciso apagar a lua para ver melhor.





 
p.s. Entrevista feita com a dualidade Giselle Ribeiro para o planeta Venus.









 

domingo, 20 de julho de 2014

COMO DESARMAR UM SOLDADO NUM CAMPO DE GUERRA?


 
          Louvado seja Deus que fez descer à terra um homem e duas mulheres. O homem com o coração na mão enchendo de vozes o nosso olhar. As duas mulheres dando luz a cada instante que as suas vozes se soltam e enlaçadas pelo afeto nos prendem nas histórias e nos poemas escolhidos, com cuidado, para habitarem em nós.

           Como desarmar um soldado num campo de guerra?

          Com a alegria de ainda estarmos vivos e podermos sentir a mão do outro suplicante de amor a cantarolar com suavidade e repetidamente:

           “Dá tua mão... dá tua mão... dá tua mão...” e a mão quando alcançada recebe o afago que entra como o sangue, como nova vida, uma vida feita de sonhos, pois eles: o homem e as duas mulheres são Apanhadores de Histórias: Contadores de Sonhos.

           Um homem e duas mulheres, volumes inesgotáveis de força e vontade de resgatar a oralidade e talvez rescrever, em palavras ditas, um livro que não cessa de mostrar as imagens refletidas nos nossos sapatos envernizados, de ponta fina, belos e desconfortáveis. E assim, eles arrancam as nossas dores e alegrias, na mesma medida, as mais escondidas, trazendo-as à superfície e nos tornando mais humanos, outra vez.

           Quem são eles? E quando isso acontece? Eles são Os Cirandeiros da Palavra. E isso acontece sempre que eles entram em nossas vidas e nesse dia, há os que choram e os que riem de um modo novo.

           Tal qual o voo do louva-a-deus que remete ao voo de um caça de combate e tem a capacidade de desviar de ataques de morcegos em pleno voo executando mergulhos. Os mergulhos, por aqui, vêm acontecendo sempre que Os Cirandeiros da Palavra atingem o nosso céu para mudar as nuvens cinzas do nosso tempo ruim.

           Por isso, louvado seja Deus que fez descer à terra esse homem Antônio Juraci Siqueira e essas duas mulheres Andréa Cozzi e Sônia Santos, Os Cirandeiros da Palavra.

           Louvado seja Deus, pois cada vez que Os Cirandeiros da Palavra se entregam a nós, é como se Drummond saltasse das suas bocas e nos dissesse em um único sopro os versos:
       
            "Eu preparo uma canção
            que faça acordar os homens
            e adormecer as crianças”.

           
E nesse dia, há os que choram e os que riem de um modo novo.



  

 

 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

DAS RUÍNAS DO NORTE A POEIRA VIRA OURO


MANIFESTO PELO PLANO MUNICIPAL DO LIVRO, LEITURA E BIBLIOTECA DA CIDADE DE SANTA MARIA DE BELÉM DO GRÃO PARÁ
Estamos nas ruínas do Norte, os livros são pedaços de muros destruídos e as pedras são as irresponsabilidades políticas jogadas contra nós. Atingidos, ficamos por um longo período embaixo dessas pedras, quase imobilizados.

Precisamos limpar a poeira dessas ruínas.

E QUAL É O PLANO?

O plano é abrir os olhos para ver melhor o mundo. Pelas lentes embaçadas, pelos limites do olhar sobre a lapela da farda dos coronéis, não poderemos mais seguir quase existindo. Precisamos existir. Apagar o quase e existir. Ainda que os riscos se aproximem, ainda que uma bomba de palavreado estoure nossos ouvidos gritando, dando as ordens de sempre. O Plano é abrir os olhos para as palavras que dormem nos livros. Manter os olhos no foco de um mundo novo e pleno de ideias e jamais nos deixar abater. Avante! Seguiremos avante pelos quatro eixos. Queremos o que nos foi prometido: Democratização do Acesso, Fomento à Leitura e Formação de Mediadores, Valorização da Leitura e Seu Valor Simbólico e Fomento à Cadeia Criativa e a Cadeia Produtiva do Livro. Avante! Avante pela criação da lei de incentivo e promoção da leitura nas ruinas do Norte, para fazer o pó da poeira virar ouro. Avante e, se preciso jogaremos no rio o elixir do gigante!

Assim, a partir de hoje, nesta cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará, neste Polo de Resistência Guamazônica, fica decretado que nossas paredes serão bibliotecas, nossos telhados serão livros de literatura dando moradia à sociedade e nossas cabeças serão o lugar de pensar e de fazer agir o pensamento.

Depois disso, as bibliotecas se construirão também dentro de cada um de nós e teremos vozes para os nossos argumentos.


                                                                 Giselle Ribeiro
                                                              (escritora paraense)













                                                  



segunda-feira, 28 de abril de 2014

GISELLE RIBEIRO EM ENTREVISTA PARA A FOLHA DE SÃO PAULO

                                                                FRAGMENTO ENCONTRADO
entrevista dada ao jornal Folha de São Paulo no ano de 1966 :
- Giselle Ribeiro, você acha que virá ao mundo para fazer o quê?
- Para comer alfinetes, percevejos e tachinhas e perfurar a lógica da existência.
- Você acha que terá alguns seguidores?
- Possivelmente algumas formigas.
- Qual o objetivo mais concreto da sua passagem pela terra?
- Tenho planejado, traçado linha após linha, num plano de dar um nó nos fios dos sapatos do tempo e nos fazer perder a voraz velocidade.
- Uma frase de efeito para o ano de 1967:
- Vou pular, descalça, uma cerca de arame farpado.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PARA DIFÍCEIS CONTAS: CALCULADORA


Para onde se vai moço? Em que direção se vai para chegar à linha de frente dessa vida? Não ser confundido com os lobos ou devorado por eles?

Trago apenas essas duas mãos envelhecidas que não foram treinadas para bater, mas para o afago. Por isso, moço, sou eu que sempre levo porrada!

Sente aqui, ao meu lado, me dê mais um trago dessa tabacaria e faça de conta que me vê, que sabe quem sou, porque de todas as certezas em mim tatuadas, há apenas uma que não se apaga, a certeza escrita com brasa e que ainda hoje arde. Essa minha maldita certeza de que:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

As pessoas daquele outro lado da rua não me conhecem pelo avesso e pensam me decifrar apenas pelas três primeiras linhas dessa tatuagem. Elas fazem questão de ignorar a última linha escrita, a linha mais dolorida e pesada.

Por isso, moço, eu não tenho certeza da direção que devo tomar. Mas me disseram, e isso já faz tempo, que a chance para encontrar a direção certa é manter o equilíbrio e não deixar o coração avançar na decisão.

Mas o meu coração desconhece a medida, por isso, moço, sou eu que sempre levo porrada!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O GÊNIO E A LOUCA

E o gênio se manifesta depois do contato das mãos de Aladim com a lâmpada maravilhosa. E desse esfregar de mãos três desejos são concedidos à poeta Giselle Ribeiro:

− Giselle Ribeiro, quem você levaria para uma ilha deserta?

 O Carlos. O Drummond. O Carlos Drummond de Andrade e o mundo inteiro estaria comigo naquela ilha deserta.

− VOU LHE DAR OUTRA CHANCE DE ESCOLHER MAIS UMA PESSOA: Giselle Ribeiro, quem mais você levaria para uma ilha deserta?

  A Cléo. A Busatto. A Cléo Busatto e juntas iríamos oralizar as histórias escritas nas pedras daquela ilha deserta.

 

− Sua ilha não é mais deserta, mas nela ainda há um espaço vazio.
Giselle Ribeiro essa é a sua última chance de povoar totalmente a ilha não mais deserta, quem, por fim, você levaria para aquela ilha de antes tão deserta?

  O Manoel. O Manoel de Barros. O meu mestre na arte de pegar delírio. Porque viver só de limites cansa imensamente! E lá, na companhia de Carlos, Cléo e Manoel:

"1. Uma rã me pedra.
2. Um passarinho me árvore.
3. Os jardins se borboletam.
4. Folhas secas me outonam."

Já não estou mais só naquela ilha antes tão deserta!



Pluft.

O gênio some e a louca faz uma oração bem antes de sumir também para aquela ilha que não mais será deserta:

ORAÇÃO PARA OS HABITANTES DA MINHA ILHA:
depois de escolher Carlos, Cléo, Manoel (e Clarice escondida no bolso) para ocuparem a sua ilha deserta, Giselle Ribeiro faz uma oração:


Nossa Senhora da Gramática, livrai o poeta do seu corte, da sua afiada faca. Deixai o poeta ousar, arriscar, criar, inventar seu estilo. As coisas são assim: língua de poeta é bicho irado, sempre livre e querendo ir contra a lógica da língua oficial. Por isso, Nossa Senhora da Gramática, livrai o poeta do seu corte, da sua afiada faca.

Nossa Senhora da Gramática, ouço Victor Hugo falando do sublime e do grotesco e penso também lhe dizer:
"as línguas são como o mar, oscilam sem parada. Num certo momento, deixam uma costa no mundo do pensamento e invadem uma outra. Tudo o que suas ondas assim o abandonam seca e se apaga no solo. p.81."
Penso lhe dizer isso, Nossa Senhora da Gramática, porque língua de poeta é bicho irado, não vacinado, ela não se fixa e não se fixará.
Nossa Senhora da Gramática, também sou poeta e em nome de tantos outros eu peço: não deixai queimarem as duas asas de Pégaso. Não deixai. Não deixai, Nossa Senhora da Gramática, não deixai. Amém.
 
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ACORDEI COM UMA VONTADE ARDENTE DE TE DELATAR AO MUNDO

Colagem de Geórgia Marques antes de desbotar seus glóbulos
                                                         para ler ouvindo "haja o que houver".
 
          Eu, amiga da tua juventude primeira, pousei meus olhos nos teus glóbulos negros naquele tempo de bem antes, visitei a tua casa, a que vivia teu corpo físico e a que vivia teu corpo poético. E de lá pra cá, o tempo cerrou com lâmina afiada o fio do nosso destino.
         Anos passaram e a minha casa poética esticou os seus compartimentos para abrigar tantos outros nomes: Lya Luft, Carlos Drummond, Manoel de Barros, Ney Ferraz Paiva, Rilke, Cléo Busatto, Marina Colasanti, Clarice Lispector, Lilia Chaves, Affonso Romano de Sant’Anna, Hilda Hilst, Fernanda Young, Viviane Mosé, Paulo Vieira.
         Mas de você quase nada fiquei sabendo ao longo desses anos.
         Outro dia, aquela lâmina cegou e o fio do nosso destino foi aceso novamente.
         Ontem te vi fazendo crochê e tricô e vi também a minha ausência de consolo. O tempo e sua lâmina afiada deixaram teus glóbulos negros ao sol para quarar, por isso essa falta de apetite, essa magreza de alma.
          Hoje vim te alimentar com um chá da folha dos teus glóbulos negros, antes de desbotar, pensando te reinventar:
 
ORAÇÃO AO SUPREMO
 
deus calai
      deus do et caetera
            talvez do infinito
                     deus de longe
                             com fumaça e vento
                                     deixai tombar calcinhas
                                                 diluir carvão
                                                     dúvida dos pássaros
        deus moeda deus
                limpai os olhos
                    de vossas nuvens.
                           
          E te peço, neste nosso novo tempo:
− Geórgia Marques, bebe mais uma xícara do teu chá, sem pensar em parar.
 
p.s.1. ORAÇÃO AO SUPREMO, poema de Geórgia Marques, do livro Glóbulos Negros, 1995. p.47)
p.s.2 Cerrar (com C) simbolizando fechar, quase definitivamente, a passagem da comunicação entre a mulher Geórgia e o seu fazer artístico, pois que nem mesmo a lâmina afiada poderá cortar e fazer verter todo o sangue, a vida poética da mulher Geórgia Marques.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

AFROUXANDO OS LAÇOS DA DOR

Geórgia Marques e os laços apertados da tristeza.

          Ela tem uma artista guardada dentro dela, que tirou férias infindáveis.
          E eu NÃO me conformo com isso!
          Ouvi dizer, ao longe, que um dia ela acordou com os olhos escorrendo tristeza por todos os lados e nem mesmo era um dia nublado do lado de fora dela.
          Mas quando cheguei perto dela, minha alegria empurrou a tristeza dela um pouco para o lado. E depois um pouco mais, até fazer a tristeza dela cair no precipício.

          A tristeza dela se desequilibrou e caiu... Plano executado.

         Coitadinha! Com a queda, a tristeza dela fraturou três costelas.
         Depois disso, parecia que o sol brilhava novamente. O sol brilhava dentro e fora dela.
          Tudo porque minha alegria empurrou a tristeza dela.
          Insensível essa minha alegria, não prestou socorro à tristeza dela.
          Por isso, ela voltou a sorrir embriagada com a nossa antiga alegria.
          E então percebo qual a função de ser humano senão dar, ao outro, o ouvido e, quando possível, puxá-lo para bem longe do precipício.


P.S. Texto feito para fazer acordar a poeta e artista visual que mora bem dentro da mulher Geórgia Marques. Porque tem coisas nessa vida que eu não me conformo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DAS RIQUEZAS DA MEMÓRIA

Profa. Juruema Bastos e Giselle Ribeiro - em setembro de 1993.

                                             “Numa revoada azul de pássaros cantando,   
                                             descem-me ao coração as saudades.”
                                                                                           Paul Verlaine

           Esse mundo bem mais que moderno nos deu de presente “um andar solitário entre a gente”.

          ...mas, eu venho de um tempo em que Ensinar rimava perfeitamente com Amar. E pela ordem natural da história Ensinar e Amar jamais formavam rima pobre, porque o coração era mais esperançoso, dentro dele havia riqueza que não se comprava, porque também não se vendia.

          Eu venho de um tempo em que a primavera parecia morar dentro das Pessoas (Professores) de Letras. Nesse tempo, eu via flores saindo das bocas sempre que de lá Camões se pronunciava pelos olhos e pela voz das Pessoas de Letras e das mesmas vozes saia sempre um “nunca contentar-se de contente”.

          Eu venho de um tempo de NÂO competir, mas de dividir, trocar saberes. E nesse tempo não havia espaço para se sentir Senhor de todo conhecimento, porque o conhecimento naquele tempo, bem sabíamos, era sempre um rio seguindo o seu fluxo e renovando as suas águas.
       
         Desse tempo, eu tenho grandes saudades...

p.S. Em memória da Profa. Juruema Bastos, uma das Pessoas de Letras daquele tempo.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

TRUQUES E RETRUQUES DOS BEIJOS DE PAULO

há beijos prolongados que sempre deviam ser dados


          No beijo primeiro fomos mais cordiais. Mansamente ele foi se aproximando e mansamente eu também me fiz ser visto por ele...

          As horas que vieram depois foram marcadas pelo avanço do meu querer devorá-lo: “sugar e ser sugado”.

           Dias depois marquei encontro com ele no mesmo lugar e os beijos eram tantos que uma marcha parecia tocar sempre que a minha língua tocava na língua dele.

          Pedia aos céus para o tempo parar. Os céus não me ouviam. Então esperava ansioso o outro dia. E lá estávamos ele e eu, viciados pelo tempo todo nosso, só nosso. Um tempo todo nosso.

         Sabia que começara a perder a cabeça, porque nada mais tinha tamanho valor. Minha cabeça era povoada por ele, meus cabelos formavam ondas sonoras vindas da voz dele me falando ao ouvido. Um vendaval de frases bem arrumadas, sabedoras do que dizer, de como dizer tudo o que vira nesse mundo tão grande e entregava aos meus ouvidos, na forma reorganizada.

          Outro dia cheguei às margens daquele mesmo rio do nosso primeiro encontro e desejoso dele, procurei:

          − Paulo, você está aqui?

          − Estou no lugar que você me deixou, naufragado nesse estranho coração.

          “e quando limosa
           nuvem forasteira
         alcançou o gigante
                sem cabeça
                    fez-se
              no horizonte
                  a árvore
                  primeira.”

              De beijá-lo e beijá-lo, minha língua ficou viciada da língua dele, do truque dele. E ainda hoje, no retruque dele, insisto acomodar a minha voz. E da primeira árvore derrubada, a minha língua pede para ser as páginas escritas por ele.