quarta-feira, 22 de agosto de 2012

NOVO NOME DE BATISMO


Desde tempos, não muito remotos, só vou ao mar com colete salva-vidas. Os medos que tenho me roubam o exercício do novo, mas nem por isso me tiram a sede. Gosto de água como quem gosta de pão quente com margarina qualy, depois das três da tarde. E essa também sou eu.
Se ainda vivesse no tempo de água em pote, pensaria em ter um caso com o pote só para sair abraçada com ele sem grandes estranhamentos, sem que a mim dissessem: Lá vai a louca do pote. E ter o prazer de ouvir: Lá vão o Sr. Pote nos braços da sua bem-amada Sra. Água.

De tanto beber água, eu já teria a confusão do que sou. Eu já seria a fusão do sólido com o líquido, eu já seria água. Se ainda vivesse no tempo de água em pote.

Mas os tempos mudaram e chegaram os filtros e os galões de água. Nem por isso perdi o gosto de beber água. Dou várias voltas do meu quarto até a cozinha, encho o copo me fartando, na tentativa de sair do estado sólido para líquido.

Agora, tenho ensaiado entrar no galão e ficar vendo peixes de toda cor passarem por mim.

Gosto de água como quem gosta de pão quente com margarina qualy, depois das três da tarde. E essa também sou eu.

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O ILUSTRADOR DA EXISTÊNCIA

         
           Leia tudo sobre isso, diziam os ingleses em tempos finais de Olimpíadas do ano 2012 e a cidade toda se fez de papel, jornal, tudo feito de palavras escritas: caminhão, piano, chão. Tudo feito de palavras escritas, prontas para serem lidas.
          Leia tudo sobre isso, repetiam os ingleses mostrando os atletas e suas emoções. O rosto dos tristes e dos alegres, as perdas e os ganhos, o triunfo e a queda e insistem nos dizendo: Leia tudo sobre isso.
          Foi aí que saltou da minha memória uma boa lembrança lida no Jornal de Infância de Anaïs Nin:

           Eu não vou mais ler tantos livros. Agora eu vou ler gente. Agora eu vou ler as pessoas.
      
          Então é exatamente o que acontece com os escritores. Um belo dia eles acordam lendo palavras e fazendo da leitura um vício e passam o resto de suas vidas nesse exercício de ler palavras, gente, bicho, planta, coisas.
         Depois fiquei pensando: Escritor literário tem cara de Cartório de Registro. Os registros de quase tudo desse mundo são feitos nele. E de lá pra cá, ele nos entrega o ofício que nos cabe tão bem, como se nos conhecesse de longas datas e compreendesse o que somos dentro do sistema em que vivemos.
         E quando volto a pensar no assunto, chega até mim uma certeza:
        
         O escritor literário é louco. Graças a Deus.
       

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

PARA TANTA LUZ, A SOMBRA



Há esperanças de que o sol não me alcance. Costumo caminhar procurando árvores e telhados que se estendam um pouco mais pelas ruas e me favoreçam com sua sombra. Nem mesmo em dias de verão, me contagio com o clima de euforia solar que todos se submetem. Acho que não sou todos, por isso procuro a sombra.
Um rapaz  que esperava a hora de ir à praia, me viu em casa numa manhã ensolarada do mês de julho diante do computador e disse:

- Trabalhando, trabalhando, sempre trabalhando.
Eu não medi palavras. Respondi:

- Meu prazer tem outro nome. Você prefere o sol. Eu a sombra.
Tempo ruim pra mim, é tempo de muito sol e quando não encontro uma árvore ou um telhado estendido um pouco mais até a rua, salto da minha bolsa uma sobrinha que se abre para me proteger e avanço pelas ruas no caminho de casa.  

Nasci para a sombra como a luva para a mão.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

VISITA AO CENTRO DE SI

                                                            Faltam-te pés para viajar?
                                                            Viaja dentro de ti mesmo,
                                                            e reflete, como a mina de rubis,
                                                            os raios de sol para fora de ti.

                                                            A viagem conduzirá a teu ser,
                                                            transmutará teu pó em ouro puro.

                                                                                                    Jalaluddin Rumi

          Todos foram à praia: mãe, irmãos, vizinhos e moradores daquela capital. Todos foram à praia. Para isso foram feitos, para lustrar os olhos dos outros, para regar as aparências, para bronzear a matéria vista. Chamam isso de felicidade, alegria ou coisa parecida. Felicidade para eles é quando a tribo toda se junta para olhar para fora, para a cor da pele, dos cabelos e conferir a etiqueta da roupa.
          Mas havia uma mulher, naquela capital, que se negava o luxo do olhar dos outros e marcou encontro com uma outra que crescia dentro dela. No primeiro dia marcado daquele mês de julho, a outra não veio. E a mulher esperou longas horas roendo o canto das unhas, andando e olhando para o centro de si. Parecia querer arrancar a outra de dentro do umbigo gritando: −Venha logo!
         Passado o dia marcado, daquele mês de julho, a mulher disse para dentro: −Além, hoje está além de mim, me visitar. Olho para a porta de entrada da minha sala de estar, a minha sala de estar mais em mim, mas não ouso entrar. Aprendi a me encontrar e jamais querer me desencontrar. Já dei voltas e voltas pela minha casa interior, pelo lado de fora dela. Hoje minhas portas e janelas parecem fechadas. Mas eu me desacostumei com o lado de fora.
         Desistiu da visita e seguiu na direção do bosque, se perdeu de si.  
         Outro dia daquele mês de julho, inesperadamente se encontraram, as duas. Enquanto todos foram à praia, a mulher foi para um espaço tranquilo, de chão todo azul. E deitada no chão todo azul, foi levada por uma voz que anunciava a direção certa: ponta dos dedos dos pés, pernas, abdômen, costas, ombros, nuca, cabeça, boca, garganta, dentes, língua e tudo o que formava a sua estrutura.
         Subitamente a outra foi reconhecida dentro dela: água de rio, iluminada por uma lua. Ela é feita de água prata correndo no corpo da mulher como um ciclo de evaporação e transpiração. As duas, em uma, atingiram a superfície da terra, bem no meio daquele chão todo azul.
          E houve felicidade do tipo desconhecida pelos que foram à praia.


P.S. VISITA AO CENTRO DE SI é um texto 50% realidade, 50% ficção. Por isso, posso chamá-lo texto de equilíbrio ou Realidade Reorganizada. Texto tecido na noite do dia 17 de julho, depois de praticar Yoga com a Profa. Patrícia Almeida e ouvir a voz que nos conduz ao centro do que somos nós.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O EXERCÍCIO DE SER MÃE

                                          Linda Ribeiro e o exercício de ser mãe


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora [...]

Foi isso que um dia Drummond soprou no meu ouvido. E quando se sopra no ouvido de poeta, é só esperar pra ver. De lá, há de sair outro vapor :

Eis o vapor:

Eu estou pensando agora no exercício de ser mãe.

Há semelhanças visíveis em ser mãe de gente e ser mãe de livro?

Eu aposto, todas as minhas moedas, na resposta positiva. Digo isso porque na gestação de livro temos o momento da fecundação dos impulsos que vem de fora para dentro. O que não estabelece interdição nenhuma com os impulsos que vem de dentro pra fora. O escritor literário é tão mãe quanto os outros tipo de mãe. Porque a fecundação, nos dois casos, pode ser de intensa troca.

O que isso quer dizer? Eu não entendi! Pensa o meu leitor.

E eu que vivo o meu mais novo estado de gestação de livro, reintero: na gestação de gente há o momento amoroso, o encantamento do futuro pai com a futura mãe que, algumas vezes  abrigam as suas sensações amorosas e nesse momento de abrigo, o futuro pai transfere o sêmen que enlaçará o filho(a) e este, por sua vez, será gerado no ventre da mãe, ficando lá até chegar o tempo de se aventurar no mundo, do lado de fora.

O que é um pouco parecido com a gestação de livro, pois que primeiro há o enamoramento do escritor com o seu objeto de desejo: a cidade e seus subterfúgios, as pessoas e suas reações diante da vida ou da morte, o país de origem ou até mesmo o país que nunca viu de tão perto, mas sabe reconhecê-lo por outro tipo de aproximação. Os esgotos de cada um de nós, por onde passam a nossa lama ou as nossas praças cheias de verdes árvores, pássaros cantando e brisa mansa. É assim a gestação de livro. É assim que os escritores são fecundados em um impulso que vem de dentro pra fora e de fora pra dentro.

E depois de tudo isso mãe de gente e mãe de livro esperam o dia, a hora, o momento de dar à luz ao mundo que, no princípio, era feito de treva.

Eu não sei quando o primeiro homem se tornou mãe. Mas eu sei que Homero foi mãe, quando engravidou e fez vim ao mundo a Ilíada e a Odisseia.

Para a literatura há caminhos do possível e mulher e homem se tornam mãe.

E é assim que a literatura desafia a ciência.


terça-feira, 26 de junho de 2012

ENTÃO EU ESTOU GRÁVIDA


                                              Se for pra cantar, eu canto: 

Eu tô grávida.
Grávida de um beija-flor.
Grávida de terra.
De um liquidificador.
E vou parir um terremoto.
Uma bomba, uma cor.
Uma locomotiva a vapor.
Um corredor..

Na idade em que estou, posso dizer que não acreditava muito na possibilidade de engravidar. O fato é que, com 44 anos, tive dois envolvimentos amorosos descontraídos, inconsequentes e irresponsáveis. Assim me permito dizer.

Primeiro fui cortejada e penetrada por um certo Charles. O vigoroso Charles. O homem sedento na água da minha fonte. Homem capaz de ver um hemisfério na minha cabeleira e fazer meus pelos desenharem na minha pele um frisson reconhecido fatalmente pelos amantes.

E Charles sabia que me tinha por interia sempre que mordia prolongadamente as minhas negras e pesadas tranças, ou quando mordiscava os meus cabelos elásticos e rebeldes e me dizia estar comendo recordações.

Depois veio Paulo, atração mais previsível, pois que morando na mesma cidade, nossos encontros passaram a ser frequentes. Até que um desses dias previsíveis, Paulo me levou à sua casa e me apresentou o seu refúgio, com a definição mais inusitada daquilo que poderia ser só uma casa. Paulo me fez ver as costuras discretas do espaço de se morar. Disse Paulo com voz de meu conquistador:

“Uma boa casa não dura para sempre. Casa adora chuva, sol de rachar, ventos e bichos que frequentem seu telhado. As casas vivem e, como nós, morrem. Algumas vivem mais, outras vivem menos. A minha, por exemplo, ainda é muito criança. Ainda resiste em abrir a boca para eu entrar.”

Depois disso, me entreguei a ele sem receios.

E foi assim que eu engravidei aos 44 anos. Gravidez com paternidade incerta. Gravidez de risco.
E desde então, risco no meu caderno alguns nomes de pessoas, de coisas, risco os movimentos da natureza, os gestos humanos e tudo o que meu olho se põe a ver.

Na minha gravidez, eu risco tudo isso formando frases e parágrafos. Nessa minha gravidez corro o risco de saltar do verso para a prosa sem deixar escapar o poema nos traços do novo filho que se faz dentro de mim.

p.s. Alguns trechos deste texto foram emprestados do poema “Um Hemisfério Numa Cabeleira”, do Pequeno Livro de Poemas em Prosa, de Charles Baudelaire. Outros foram extraídos do livro para distração na tragédia, do poeta Paulo Vieira. (a casa. p. 63). Agradeço a Charles e Paulo por me fazerem amante das suas escritas poéticas e assim me engravidarem de Poema em Prosa.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

FINITO. SHOW DE ILUSIONISTA É FINITO.



        Em cima do meu telhado tinha ilusionista.

        Eu pouco sabia desse ofício, até que um dia me disseram para olhar para o meu telhado. E foi quando percebi que em cima do meu telhado tinha um par de olhos enormes me vigiando e querendo tudo o que é meu para si.

        Em cima do meu telhado tinha Ilusionista roubando ideias, projetos e até mesmo pessoas. Nunca pensei que pessoas pudessem ser roubadas, arrancadas umas das outras. Mas ilusionista de verdade, sabe roubar quase tudo: projetos, ideias e sabe arrancar uma pessoa da outra sem remorso ou culpa e ainda se diz frágil, sofrido. Essa é a arma de ataque de ilusionista: causar no outro a pena de si. Arma falha, porque a mentira, eu sei, é apenas um lado da moeda, o outro lado da mesma moeda é a Verdade. Arma mais eficaz é a Verdade. A verdade é o lado da moeda que mais me fascina e que eu prefiro lançar contra ilusionista que me vigia dia e noite, noite e dia.

         Em cima do meu telhado tinha ilusionista que fazia trapaça com o pouco que sabia de mim. Sonhava ter intimidade e não media esforço para não acordar do sonho, fingindo não ser o que é: ilusionista.

        Mandei chamar o reparador de telhados para cobrir a fresta e apagar a luz do espaço de foco do ilusionista.  

       Virei a moeda para o lado certo e sentei na porta da minha casa para esperar a calmaria chegar, logo depois das tempestades.     

quinta-feira, 31 de maio de 2012

GOZO É UMA ILHA NO MAR MEDITERRÂNEO? OU A MESMA ILHA NO MAR DAQUELA MULHER?


Para entender o que lhes digo, veja a foto de Fernanda Arruda, aluna do curso de Letras na UFPA, sentindo o Prazer do Texto. E depois vá e volte da foto ao texto quantas vezes for preciso.


Onde começa o prazer? É verdade que o gozo se dá quando ocorre uma grande carga de eletricidade no contato físico? E como começa ou termina? Ejaculação é fala proibida na boca das mocinhas de outrora, sempre tão temerosas?
Outro dia vi um Texto Poético depositar seus gametas no interior da Leitora, fecundando a Leitora e criando outras vidas bem dentro dela e, 200 a 500 mil ideias podem ser lançadas no interior de uma Leitora quando ela está em dias férteis, caso ela se permita entrar em estado de prazer, orgasmo, gozo com o seu parceiro, o Texto.

É bom lembrar que ejaculação e orgasmo, se confundem nessa hora, mas não são a mesma coisa. Sigamos as pistas para o entendimento: “Segundo Prem Milan, o orgasmo é aquele momento antes da ejaculação. “É o momento em que tua cabeça se perde. São pequenos segundos que podem e devem ser ampliados porque eles vão te levar para um nível de prazer muito maior. Mas a energia é tão forte que simplesmente teu corpo não aguenta mais. Aí vem a ejaculação, como se fosse uma descarga.”
O bom de tudo isso é saber que homem e mulher ejaculam, homem e mulher sentem o gozo e juntos é possível alcançar o paraíso dos prazeres, porque temos a textura do sentir e, é o grau desse sentir que nos aproxima ou distancia do prazer sexual, estético, poético, dependendo do seu objeto de desejo. E sabe aquela ideia que ejaculação é a liberação de espermatozoides? Ela se apaga quando a mulher de hoje ama ao ponto de expulsar para o interior do mundo, cargas elevadas de felicidade, fecundando o espaço em que vive de imensa alegria. É bem isso que acontece quando nos permitimos sentir o prazer de um Texto Poético.

O orgasmo masculino típico dura cerca de 17 segundos, o que não é regra geral, porque ele pode durar cerca de um minuto, mas quando se trata de gozo poético, ele pode durar bem mais que isso, ele pode durar minutos e minutos, transformando esse tempo em horas de intenso prazer.
E quando lhe digo que já vi um Texto Poético fecundar a Leitora, posso dizer que isso acontece, por exemplo, quando o Texto Poético convida a Leitora para uma dança. Ela, por sua vez, aceita. E outras músicas vão chegando até que os dois já se reconhecem como pares daquele baile. E assim, há entrega quase total. O Texto Poético apresenta ao seu par o poder das suas palavras, as cores das suas palavras, a vida das suas palavras que pede sempre para ser renovada. E a esse Texto chamamos agora, de Texto Plurissignificativo, pois quando fecundado no interior da Leitora, pediu para dali nascer nova cor, novo sabor, um novo signo. O texto se abriu todo para que ela entrasse e se fizesse rainha dele. E depois de um repouso o Texto olha nos olhos da Leitora e lança faíscas de uma única pergunta:

− Foi bom pra você?                     
E a resposta se firma num longo abraço dela, nele.

        

quarta-feira, 16 de maio de 2012

NASCIDA PARA O EXERCÍCIO DO BEM

Alessandra Vasconcelos vestida de príncipe saída de um conto de fadas e sentada na postura de Lótus

          Na minha vida tem uma menina chamada Alessandra. Às vezes ela é só ela, às vezes ela é outras. Um dia aluna. Um dia anjo. Um dia Flor de Lótus. Um dia outra surpresa. Um dia tantas peles. Mas o bom de tudo isso, é que ela sempre se veste para o exercício do bem.
          Outro dia ela acordou escritora, foi quando os meus olhos cresceram na tela do computador ao ler o que sua escrita poética tinha para me dizer. Então pensei em dividir com você, caro leitor, a poeticidade da Alessandra Vasconcelos. A menina. A aluna. O anjo. A Flor de Lótus. A escritora:

Com o tempo, nos acostumamos a viver com ou sem as pessoas que aprendemos a chamar de amor, querido, amigo... O mundo gira de tantas formas...
Há horas que perdemos a noção do giro, somos sugados pelo movimento... E então...
Giramos,
            Giramos,
                        Giramos...
Em cada volta vai ficando nossos retalhos: pedaços de pele, suor, dor; pedaços de sonhos, desejos e amor.
Por fim, quando retornamos a consciência, na última volta da existência, precisamos ser socorridos porque antes mesmo de ter se tocado o coração já havia sido mutilado pelas voltas do destino. 


Assim me falou Alessandra, quando se viu escritora. E eu acho tudo isso bárbaro, por isso divido meus bens poéticos com você que agora me lê.  Outro dia, descobri que em volta de mim tem uma ciranda do bem que trabalha para que tudo aconteça com tranquilidade nos meus dias de existência na terra. A Alessandra Vasconcelos. A aluna. A menina.O anjo. A Flor de Lótus matém essa ciranda viva. Que bom que os anjos ainda visitam a terra.

  

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O ETERNO ROSTO DO AMOR



Antes de ver o vídeo, preciso te dizer que:


Estás prestes a tomar uma boa decisão na vida: Amar e ser amado, em retribuição. Essa sempre foi a moral da nossa história. E é por isso também que eu tanto gosto do filme Moulin Rouge. Aos atentos, o filme começa e termina com essa moral, mas às vezes deslizamos e por uma distração escapamos dos amores escritos em nossas vidas para serem praticados no tempo presente e para todo o sempre.


Amor eterno?


Sim, amor eterno. Ele existe, eu sei que existe, mas sei também que, para que ele se estabeleça precisamos cuidar dele. Não deixemos que alguns duros acontecimentos nos tire a força que o move. Não percamos a delicadeza ao esbarrar com o furor de situações desconfortantes chegando, porque com elas chegam também um novo aprendizado. Os obstáculos surgem como sustentação da base desse amor, mas isso só entenderemos em um momento posterior, quando a embriaguez da dor se fizer sobriedade para ver os fatos com sua carga de positividade. Acreditar na estadia amorosa que se vive, é também alimentá-la e é também conhecer o exercício do perdão pra que o amor se sinta no seu devido lugar e nos faça felizes e merecedores dessa dádiva.


Eu amo. E sou amada no tempo presente e para todo o sempre.


P.S. Talvez você nem acredite no que lhe digo. E se é assim agora peço que siga até o vídeo e veja, ouça, sinta Vanessa da Mata lhe dizer essas coisas que eu acredito.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O POETA ANDANTE. UM DOADOR DE CORAÇÃO.


É ele. O moço. O doador de coração.

Essa é a história mais bem vista nos ônibus de Belém.
Na minha cidade existe um moço que se aproxima dos outros passageiros com a mesma calmaria das chuvas da tarde e deposita sobre nossas mãos, o seu coração.
O coração desse moço sempre conversa com cada passageiro. E tudo é mais ou menos assim, ele chega com uma pequena dose da sua fala poética e, BUM atravessa em um voo cortante a nossa atenção.

Depois ele desce do ônibus.
E nós seguimos com o coração dele guardado em nossas mãos. Sem pagar nada.

Acho que ele é uma espécie rara. Um tipo poeta andante que publica sua voz calma, serena e pulverizadora, combatendo os nossos vícios daninhos dentro dos ônibus em uma cidade bem distante das outras, no País chamado Brasil.
O coração dele mais parece um fertilizante lançado sobre as áreas de interesse.

Assim é o coração do Antônio Juraci Siqueira, o moço do ônibus, dessa história que hoje lhes conto.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

VER O PESO DE DOIS POETAS NA BALANÇA


Paulo Vieira e Daniel Leite reconhecendo o Peso Vero

Primeiro ouvi um barulho dentro da minha cabeça. Ouvi o barulho de rachadura do pensar a minha cidade. Comecei lendo Daniel Leite, poeta paraense. E depois de tantas páginas percorridas, ouvi mais rachaduras. Continuei lendo e avancei para as páginas do livro dividido com Paulo Vieira. E a rachadura concluiu o seu percurso: virou pó de pensamento. Acabo de ler dois poetas de Peso Vero. Um de pé firme na sua terra, Daniel Leite, poeta paraense de expressão regional. O outro de pé solto, desvairado, pé solto no ar, sabedor da sua cidade, mas cheio de liberdade. Paulo Vieira avança nas páginas do Peso Vero arrebentando a sua terra para plantar novos símbolos. Paulo Vieira, poeta paraense de expressão universal, traz homens de outras Nações para viver no Peso Vero, andar sob a sua escrita, pisar no chão do seu olhar poético. Vieira cura a cegueira de Homero e faz dele outro homem. Faz Homero beber Café com leite na casa de Prévert, relembrando “Il a mis le café dans la tasse” para então refazer “Ila preparava o café e o leite”. Enquanto isso, nas páginas primeiras lidas, Daniel Leite chama a Menina do café para lembrá-la do Peso Vero que a vida inspira, e enche a garrafa térmica daquela menina com o seu novo devir “Das paredes do mercado guardas essa noite infinda”.

terça-feira, 3 de abril de 2012

A FELICIDADE É SIMPLES ASSIM


O príncipe Garibalde

A princesa Gariléia


Num reino bem longe dali, vivia o belo e bom Gari.
Garibalde era o seu nome de pia e tudo o que nele se via
era bravura, coragem e boa vontade
para manter tudo bem limpo ali.
E no seu belo Reino, por outros chamado Praça Batista Campos
pegava todos os dejetos que por lá deixavam,
transformava em pó e carregava com sua pá
para bem longe daquele lugar.
Garibalde era bem feliz ali, pois que reinava
na companhia da sua Amada Gariléia.

Gariléia e Garibalde, um par de gente feliz até que...

Nem tudo nesta vida é perfeito, e isso todos nós já sabemos.
Os moradores que viviam em volta do Reino de Garibalde e Gariléia
eram quase todos, invejosos de tamanha felicidade.
E assim, se juntavam os de perto com os de longe
para despejar mais e mais dejetos dentro do Reino de Garibalde e Gariléia.
E todos os dias o bom príncipe e sua princesa
tinham que enfrentar os terríveis monstros do esquadrão das bactérias.
Eles se alojavam em todo o Reino de Garibalde e Gariléia,
no Lago de um Olho Só,
na grama ainda verde,
nos bancos feitos para sentar gente boa e gente ruim.
Mas Garibaldi e Gariléia encontraram um aliado para a luta brava continuar.
E cada vez que uma ameaça aparecia
era o um canto que se ouvia “Bem-Te-Vi sujando tudo por aqui!”
Era esse o canto de guerra do aliado de Garibalde e Gariléia
anunciando a presença de mais um inimigo para combater.

E quando chegava a noite,
o Reino todo ouvia Gariléia incansável
cantarolava para o repouso do seu Amado
a bela canção das lutas bravas dos seus dias:

Eu consolo ele / ele me consola / boto ele no colo pra ele me ninar / De repente acordo / Olho pro lado / E o danado já foi trabalhar... / Olha aí! / Olha aí! / Olha aí! / Aí o meu Gari, olha aí / Olha aí! / É o meu Gari.

P.S. Este conto foi tecido após uma vivência feita no Projeto Entreletras em 2011.
Local da vivência: Praça Batista Campos, em Belém do Pará.

sexta-feira, 23 de março de 2012

QUANDO O REI CORTOU AS TRANÇAS DE RAPUNZEL, SEPAROU A LUA E O SOL NO CÉU


Fotografia do Sol que ninguém sabe se é Lua. Ou da Lua que ninguém sabe se é o Sol.

P.S. Conto tecido durante o I Encontro de Contadores de História da Amazônia, na Oficina "Performance Poética: O Corpo Contando História"; ministrada por Adrine Motley e Dia Favacho.

Essa história é verdadeira. Ela tem personagens que saltaram de dentro do evento, quando Dia Favacho e Giselle Ribeiro se viram com a mesma blusa. E não houve desconforto, mas reconhecimento de que trazem na pele o mesmo sonho. Por isso, essa história diz assim:

Em um tempo não muito distante
viviam duas irmãs
muito unidas, muito unidas.
Gostavam quase sempre
das mesmas coisas:
ouvir e contar histórias
e de outras boas diabruras.

Um dia um rei malvado
quis torná-las desunidas
e lançou um feitiço terrível
de nunca mais poderem se encontrar.

Adeus Branca de Neve,
Gato de Botas,
Cadeira de Balanço
e Roda de Ouvintes.
Adeus amigo Grimm e Perrault.

Porque hoje, sem mais alegria,
em tempos distintos,
elas vivem com seus novos nomes
dizendo ao mundo:
- Eu sou a Noite.
- Ela é a Dia.

segunda-feira, 19 de março de 2012

COMO SE VALESSE A PENA RENASCER SEMPRE



Como se faz para chegar do outro lado do mundo sem piscar os olhos?

O senhor de negócios olhou para os lados, procurou outro alguém para responder a questão mais absurda que já lhe tinham feito no curto tempo da sua memória de felicidade. Mas não havia mais ninguém naquele espaço de assombramentos. Então pensou em se atirar ao mar e se ver livre do que lhe parecia estranho: uma menina cheia de fantasias.

A menina insiste:

Moço, quero ir da minha idade ver a idade do seu tempo para plantar flores de companhia no jardim da sua solidão. O senhor me parece bem sozinho!

Desarmou o homem que agora relembrava o seu passado bem remoto. Parecia que a menina encostava duas pedras no raciocínio daquele homem e dali tirava faiscação de uma felicidade que ele nem mais sabia que cheiro tinha.

Respirou fundo, abraçou o retrato falante da menina e, desde então, se viu pronto para chegar do outro lado do mundo sem piscar os olhos.

P.S. Texto escrito em 05 de janeiro de 2012, aniversário da contadora e encantadora de histórias Cléo Busatto. Mas imaginemos que amanhã, bem cedo nascerá mais uma vez Cléo Busatto para soprar em nossos ouvidos tantas histórias, porque amanhã, caro leitor, dia 20 de março é o Dia Internacional do Contador de Histórias.
Obrigada Cléo Busatto, minha Flor de Formosura, por iluminar o meu caminho profissional.

quarta-feira, 14 de março de 2012

APRENDI A EMPINAR POESIA



Outro dia fui à praia.
Não porque gosto de sol e multidão.
Fui à praia vender poesia.

É claro que ninguém comprou ou gostou do produto que eu vendia.

Botei meus versos no chapéu, porque moeda ali não caía.
E devolvi para a minha cabeça meus pensamentos poéticos.

Da próxima vez, vou fazer diferente:
Vou à praia empinar meus versos com fio dental.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

ECOS DA VALSA N° 6


Veja o vídeo e siga as pistas do texto

Feche os olhos por alguns poucos minutos. Talvez um minuto. Talvez dois minutos. Ou talvez alguns segundos sejam suficientes para você se ver dançando bem no meio da sua sala de estar. Sala de estar triste. Sala de estar alegre. Sala de estar mornamente instalado na sua vida. Ou melhor, sala de estar com a vida fervendo de grandes e boas emoções. Sala de estar louca.

Eu, por mim, posso lhes contar que pousei, na madrugada do último dia vinte e cinco, no aeroporto internacional de Belém já saudosa de tantas expressões de arte, de tantos rostos simpáticos me desejando bom dia antes de dar qualquer informação turística. Entrei em Belém leve, bem mais leve dos problemas locais. Mas antes, na introdução local, o problema climático já me situava o lugar de entrada: Srs. passageiros teremos que sobrevoar a cidade por mais quinze minutos. Por problemas climáticos não obtivemos permissão de pouso. Pronto, essa é a cidade que eu moro. A leveza adquirida em tempos de férias pede para ser peso.

Foi então que pensei em Sônia, personagem da Valsa n° 6, de Nelson Rodrigues:

“SÔNIA (aumentando progressivamente a voz, até ao grito) - Sônia!... Sônia!... Sônia!...
(para si mesma) Quem é Sônia?... E onde está Sônia? (rápida e medrosa) Sônia está
aqui, ali, em toda a parte!(recua) Sônia, sempre Sônia...(baixo) Um rosto me
acompanha... E um vestido... E a roupa de baixo...”

A peça é intimista. Uma conversa pessoal da personagem Sônia com ela mesma e o desespero de não querer ser louca, a primeira louca da família:

“O vestido que me persegue...
De quem será, meu Deus?(corre, ágil, para a boca de cena. Atitude polêmica) Mas eu não estou louca! (lá cordial) Evidente, natural!... Até, pelo contrário, sempre tive medo de gente doida!(amável e informativa, para a platéia) Na minha família, e graças a Deus, nunca houve um caso de loucura...(grita, exultante) Parente doido, não tenho!
(sem exaltação, humilde e ingênua) Só não sei o que estou fazendo aqui... (olhando em
torno) Nem sei que lugar é este. (recua, espantada; aperta o rosto entre as mãos)Tem
gente me olhando!(olha para os lados e para o alto. Lamento maior) Meu Deus, porque existem tantos olhos no mundo?”

Sônia, neste momento eu também não desejaria saber quem eu sou ou para onde eu vou. Queria mesmo era me situar na sala de estar louca de desejo de retornar à cidade de São Paulo. Seguir até a Av. Paulista com destino certo: Casa das Rosas e lá, ver Sônia com o meu rosto lindamente louco, estampado e iluminando a vida naquela Casa das Rosas.

P.S. Para os leitores que moram em São Paulo, vai a dica: Valsa n° 6, de Nelson Rodrigues com a envolvente interpretação da atriz Ligia Paula Machado, na Casa das Rosas. A peça estará em cartaz até abril. Eu se fosse você, ou até se fosse eu mesma morando em São Paulo, iria ver mais umas vezes Valsa n° 6, na Casa das Rosas. A entrada é só R$30,00 e o prazer da arte vale muito mais.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

QUANTOS OLHARES PARA O MESMO LUGAR?

DOIS OLHARES PARA OS MESMO LUGAR EM TEMPOS DIFERENTES. VISTA NOTURNA E DIURNA DA AV. SÃO JOÃO




Para onde vai com tanta pressa?

Vou para o lado da alegria. Vou para a estação da Luz. Vou ver o Tatuapé. Vou atrás de Consolação. Me deixe ir assim, com pressa ou mesmo na calmaria, porque São Paulo me atravessa com sua Liberdade e vontade de crescer mais para onde eu nem sei. É carnaval e aqui tem bloco de todos os amores, amores compreendidos e amores antes incompreendidos. Vejo tranqüilidade também por onde passo e em seguida vem o bloco dos destemidos que passam sem deixar maiores danos.

É no 17° andar do hotel Fórmula 1 que eu moro, por esses dias, é do meu apartamento, no 17° andar, na Avenida São João, que eu bebo São Paulo como quem bebe água natural, para não querer, tão logo, matar a sede que tenho dessa cidade.

Mas eu vou ter que voltar para o lado de lá.
Então posso dizer:
Sei que os sonhos são finitos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

DAS LIÇÕES DO BEM VIVER


Foto feita em fevereiro de 2012, no Templo Budista, em Foz do Iguaçu

“Jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor." Palavras de Buda.

Em um tempo, não muito distante, eu aprendi do que era feita a composição humana. E quando mais eu entendia o assunto, mais uma Paz enorme se acomodava dentro de mim.
Mas eu não entendia, ou melhor, não sabia explicar com clareza o que dentro de mim ocorria. Eu sei dizer que reaprendi algumas lições do bem viver. Para essa lição, a mim foi ensinado, cantar um mantra: “Deus é amor, eu sou amor”. Mantra é uma sílaba ou poema religioso normalmente em sânscrito. Os mantras originaram do hinduísmo e são utilizados também no budismo, são entoados como orações, repetidas como as do cristianismo. E se você me perguntar se funciona, eu posso garantir que comigo funciona perfeitamente. Hoje vejo todos os rostos do amor e aprendi a exercitar o amor sem amarras, o amor sem ciúmes, o amor sem posse, o amor que respeita o outro e seus limites. Hoje sei de um amor em liberdade e totalmente do bem. Por isso, disse anteriormente que aprendi a lição do bem viver e essa lição a mim foi ensinada pela prática da Yoga com a Profa. Patrícia Almeida, além de aprender a manter contato íntimo comigo através da terapia, exercitada com a Dra. Sâmia Rodrigues.

Por tudo isso, chegou o tempo de saber que eu cresci emocionalmente.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

QUE GOSTO TEM ESSA FATIA DO PÃO?


A ordem da leitura não altera o prazer. Veja o vídeo e leia o texto ou leia o texto e veja o vídeo.

São Paulo, 08 de fevereiro de 2012

Sou uma mulher comprometida com a minha palavra...

Disso eu tenho certeza. E foi por isso que lembrei de ter lhes prometido dividir o meu pão com vocês... E estando hoje, bem no coração da grande São Paulo, depois de revisitar o Museu da Língua Portuguesa ainda ouço a voz de Oswald de Andrade, poeta homenageado insistindo em anunciar:

“Aprendi com meu filho de dez anos
Que poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi.”

E eu que acredito nestes versos, posso afirmar que meus alunos também descobrem esses segredos sempre que reaprendem a ler com os textos poéticos.

E por tudo isso, acreditamos em Mário Quintana:

“Quem faz um poema salva um afogado”

Afinal, a literatura serve também para isso, para nos tornar descrentes do que aprendemos e desejosos de novos saberes.