quinta-feira, 9 de outubro de 2014

OUTUBRO ou NADA


          Tiro os óculos para ver pouco. Mas o coração também sabe enxergar. E, para isso, fuga não há. Tapo os ouvidos para não escutar. Mas o coração ouve até mesmo o que se pensou pronunciar.
          E atravessa outubro dentro de mim com o mesmo tempero de tantos outros outubros: pouco sal, quase nada de sabor.

          Vai tristeza festejar o mês vindouro que eu fico por aqui, sentada na porta do céu, esperando a Santa dos infelizes fazer a sua romaria da partida. Vou segui-la, me agarrar no seu manto, protestar, implorar que ela nunca mais volte, vou me fazer de pobre coitada, desejosa de mudança. E se nada disso resolver, vou afundar o meu navio ou quem sabe aprender a nadar?

O ANTIPENSADOR                    

Meu navio está afundando
e eu quero ficar de olhos extraordinariamente
grudados nesta paisagem.

Talvez aprenda a nadar.
Talvez aprenda a morrer.

                  Goselle  Ribeiro, outubro, 2014

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O DIA EM QUE EU ENGOLI UMA CHAVE

          Se eu fosse um alfinete, não ajudaria muito, ou quase nada, não ajudaria em nada. Talvez perfurasse a barriga e as palavras sairiam dela escorrendo sem multiplicar os seus significados. Talvez pouca coisa acontecesse nesse globo cheio de água em que eu me vejo agora.
          Disse a chave, um pouco pensativa das suas tarefas ali, no ambiente novo a percorrer.
         Agora, no caminho do laboratório: ultrassonografia, identificar objeto, reconhecê-lo e retirá-lo da barriga. Aproximação da gestação.
         “O filho que não fiz / fez-se por si mesmo” pensa Giselle Ribeiro e se diz esses versos do Drummond. E ela grita, quase silenciosamente para a mãe:
          − Mãe, engoli uma chave e ela abriu a porta para passarem 69 poemas eróticos. Será que já está próximo o dia da minha morte, minha mãe?
         − Possivelmente, minha filha. Nos próximos dias, você terá umas respirações ofegantes, uns arrepios, talvez suores e uns gemidos acompanharão essa hora.  A hora exata da sua “petite mort”. E assim, todos os que se aproximarem destas 69 páginas também viverão o modo francês de gozar a vida.
          E o amor abrirá novas portas.
 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

7 DIAS SEMPRE RENOVÁVEIS PARA O ESCRITOR

Não. Não compramos em loja alguma um único dia para o escritor. A escrita escolhe o dia, o escritor apenas denuncia essa escrita.



- É possível definir poesia ou para você definir poesia é crime?

- Encontrar uma ÚNICA definição para a poesia é crime. Uma das coisas que a poesia pode ser, uma casa sonora. Ela é uma grande casa com uma numerosa família habitando seus compartimentos. E cada vez que a família, moradora desta casa, se movimenta a poesia se alarga para caber toda nela. Eu aposto na poesia como uma grande casa sonora porque sei que todas as portas desta casa se permitem abrir pelos seus moradores e fazer deles seus moradores mais fiéis. E eles são fiéis porque foram encantados pela casa sonora. A encantação começa quando o leitor se permite ouvir todas as vozes, todos os sons que a poesia tem para ele. Outra coisa que a poesia pode ser, um guarda-roupa cheio de peças para serem usadas em todas as estações do ano, ou todas as estações do seu tempo emocional: em dias de tristeza ou alegria pura tem poesia certa para vestir. Então entre neste guarda-roupa e experimente o que melhor lhe couber em cada dia do ano.

- Como acontece a criação literária para você que é poeta, com quatro livros já publicados?

- A criação literária pode acontecer como um espirro que lança estrelas para fora do escritor. Depois do dito, podemos imaginar um espaço escuro que pouco, bem pouco se pode ver e, de repente acontece uma invasão de vaga-lumes. Pequenos pontos acendendo e apagando e que dão clareza e ao mesmo tempo escondem clareza do leitor para torná-lo receptor ativo, aquele que terá vontade de acender esses vaga-lumes para saber o que estaria por trás daquela escuridão. Quanto aos três livros que eu publiquei, eles tem histórias diferentes e parecidas, ao mesmo tempo. O processo de criação literária é uma coisa surpreendente, pode ser um momento duradouro para atingir a maturidade poética, o tempo certo do nascer para o mundo. Mas pode ser também um espirro lançando estrelas para o espaço do leitor.

- Objeto Perdido. Esse é o nome do seu primeiro livro, qual o caminho trilhado para se chegar ao título de um livro?

- Às vezes o que dura mais tempo para nascer é o título de um livro, de um objeto que virou arte. Foi assim com o Objeto Perdido. Quando o livro já tinha a formação quase total do seu corpo, a cabeça pediu para ser gerada. E foi em 1997 que recebi uma carta vinda de Paris. Minha amiga e psicóloga Léa Sales estava fazendo um curso em Paris e me mandou de presente uma carta recheada de possibilidades de pensar o título do livro. Na carta eu encontrava explicação freudiana para os nossos conflitos e estava ali o segredo para o título do livro. Por isso o trecho desta carta aparece na contracapa do livro.

- E 69 durou muito tempo para o título ou a cabeça do livro também nascer?

- Eu confesso que não me sinto muito confortável para tratar da pele dos meus livros. A mim sempre parece que o livro quer e deve falar por si. Há leitores que desejam comprar o 69 só pelo título, sem fazer uma leitura proposta desde a capa, melhor dizer, da coluna vertebral do livro. Antes mesmo de abrir o livro, ele já anuncia o que tem dentro dele. A viagem deve começar desde o momento da embarcação.

- Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem, esse é o título do seu terceiro livro lançado na XV Feira Pan-Amazônica do Livro e parece querer lançar uma nova moda. É isso?

- Eu não digo que é a nova moda, mas uma moda antiga que quer retomar o seu lugar. Houve um tempo, nós o perdemos, em que ouvíamos histórias antes da noite tomar velocidade e se transformar dia. Era o tempo em que a eletricidade não violentava a nossa imaginação, o tempo que se ouvia histórias e se lia também muitas histórias como se elas fossem parte de nós. Era como se abríssemos o guarda-roupa e descobríssemos a roupa como pele nossa. Então, tomávamos emprestados os textos acreditando que naquele momento mágico, o texto nos pertencia e nós pertencíamos a ele. E havia cumplicidade!


- O que você diria para a geração que tem sido violentada pela descoberta da eletricidade?

- Às vezes, é preciso apagar a lua para ver melhor.





 
p.s. Entrevista feita com a dualidade Giselle Ribeiro para o planeta Venus.









 

domingo, 20 de julho de 2014

COMO DESARMAR UM SOLDADO NUM CAMPO DE GUERRA?


 
          Louvado seja Deus que fez descer à terra um homem e duas mulheres. O homem com o coração na mão enchendo de vozes o nosso olhar. As duas mulheres dando luz a cada instante que as suas vozes se soltam e enlaçadas pelo afeto nos prendem nas histórias e nos poemas escolhidos, com cuidado, para habitarem em nós.

           Como desarmar um soldado num campo de guerra?

          Com a alegria de ainda estarmos vivos e podermos sentir a mão do outro suplicante de amor a cantarolar com suavidade e repetidamente:

           “Dá tua mão... dá tua mão... dá tua mão...” e a mão quando alcançada recebe o afago que entra como o sangue, como nova vida, uma vida feita de sonhos, pois eles: o homem e as duas mulheres são Apanhadores de Histórias: Contadores de Sonhos.

           Um homem e duas mulheres, volumes inesgotáveis de força e vontade de resgatar a oralidade e talvez rescrever, em palavras ditas, um livro que não cessa de mostrar as imagens refletidas nos nossos sapatos envernizados, de ponta fina, belos e desconfortáveis. E assim, eles arrancam as nossas dores e alegrias, na mesma medida, as mais escondidas, trazendo-as à superfície e nos tornando mais humanos, outra vez.

           Quem são eles? E quando isso acontece? Eles são Os Cirandeiros da Palavra. E isso acontece sempre que eles entram em nossas vidas e nesse dia, há os que choram e os que riem de um modo novo.

           Tal qual o voo do louva-a-deus que remete ao voo de um caça de combate e tem a capacidade de desviar de ataques de morcegos em pleno voo executando mergulhos. Os mergulhos, por aqui, vêm acontecendo sempre que Os Cirandeiros da Palavra atingem o nosso céu para mudar as nuvens cinzas do nosso tempo ruim.

           Por isso, louvado seja Deus que fez descer à terra esse homem Antônio Juraci Siqueira e essas duas mulheres Andréa Cozzi e Sônia Santos, Os Cirandeiros da Palavra.

           Louvado seja Deus, pois cada vez que Os Cirandeiros da Palavra se entregam a nós, é como se Drummond saltasse das suas bocas e nos dissesse em um único sopro os versos:
       
            "Eu preparo uma canção
            que faça acordar os homens
            e adormecer as crianças”.

           
E nesse dia, há os que choram e os que riem de um modo novo.



  

 

 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

DAS RUÍNAS DO NORTE A POEIRA VIRA OURO


MANIFESTO PELO PLANO MUNICIPAL DO LIVRO, LEITURA E BIBLIOTECA DA CIDADE DE SANTA MARIA DE BELÉM DO GRÃO PARÁ
Estamos nas ruínas do Norte, os livros são pedaços de muros destruídos e as pedras são as irresponsabilidades políticas jogadas contra nós. Atingidos, ficamos por um longo período embaixo dessas pedras, quase imobilizados.

Precisamos limpar a poeira dessas ruínas.

E QUAL É O PLANO?

O plano é abrir os olhos para ver melhor o mundo. Pelas lentes embaçadas, pelos limites do olhar sobre a lapela da farda dos coronéis, não poderemos mais seguir quase existindo. Precisamos existir. Apagar o quase e existir. Ainda que os riscos se aproximem, ainda que uma bomba de palavreado estoure nossos ouvidos gritando, dando as ordens de sempre. O Plano é abrir os olhos para as palavras que dormem nos livros. Manter os olhos no foco de um mundo novo e pleno de ideias e jamais nos deixar abater. Avante! Seguiremos avante pelos quatro eixos. Queremos o que nos foi prometido: Democratização do Acesso, Fomento à Leitura e Formação de Mediadores, Valorização da Leitura e Seu Valor Simbólico e Fomento à Cadeia Criativa e a Cadeia Produtiva do Livro. Avante! Avante pela criação da lei de incentivo e promoção da leitura nas ruinas do Norte, para fazer o pó da poeira virar ouro. Avante e, se preciso jogaremos no rio o elixir do gigante!

Assim, a partir de hoje, nesta cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará, neste Polo de Resistência Guamazônica, fica decretado que nossas paredes serão bibliotecas, nossos telhados serão livros de literatura dando moradia à sociedade e nossas cabeças serão o lugar de pensar e de fazer agir o pensamento.

Depois disso, as bibliotecas se construirão também dentro de cada um de nós e teremos vozes para os nossos argumentos.


                                                                 Giselle Ribeiro
                                                              (escritora paraense)













                                                  



segunda-feira, 28 de abril de 2014

GISELLE RIBEIRO EM ENTREVISTA PARA A FOLHA DE SÃO PAULO

                                                                FRAGMENTO ENCONTRADO
entrevista dada ao jornal Folha de São Paulo no ano de 1966 :
- Giselle Ribeiro, você acha que virá ao mundo para fazer o quê?
- Para comer alfinetes, percevejos e tachinhas e perfurar a lógica da existência.
- Você acha que terá alguns seguidores?
- Possivelmente algumas formigas.
- Qual o objetivo mais concreto da sua passagem pela terra?
- Tenho planejado, traçado linha após linha, num plano de dar um nó nos fios dos sapatos do tempo e nos fazer perder a voraz velocidade.
- Uma frase de efeito para o ano de 1967:
- Vou pular, descalça, uma cerca de arame farpado.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PARA DIFÍCEIS CONTAS: CALCULADORA


Para onde se vai moço? Em que direção se vai para chegar à linha de frente dessa vida? Não ser confundido com os lobos ou devorado por eles?

Trago apenas essas duas mãos envelhecidas que não foram treinadas para bater, mas para o afago. Por isso, moço, sou eu que sempre levo porrada!

Sente aqui, ao meu lado, me dê mais um trago dessa tabacaria e faça de conta que me vê, que sabe quem sou, porque de todas as certezas em mim tatuadas, há apenas uma que não se apaga, a certeza escrita com brasa e que ainda hoje arde. Essa minha maldita certeza de que:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

As pessoas daquele outro lado da rua não me conhecem pelo avesso e pensam me decifrar apenas pelas três primeiras linhas dessa tatuagem. Elas fazem questão de ignorar a última linha escrita, a linha mais dolorida e pesada.

Por isso, moço, eu não tenho certeza da direção que devo tomar. Mas me disseram, e isso já faz tempo, que a chance para encontrar a direção certa é manter o equilíbrio e não deixar o coração avançar na decisão.

Mas o meu coração desconhece a medida, por isso, moço, sou eu que sempre levo porrada!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O GÊNIO E A LOUCA

E o gênio se manifesta depois do contato das mãos de Aladim com a lâmpada maravilhosa. E desse esfregar de mãos três desejos são concedidos à poeta Giselle Ribeiro:

− Giselle Ribeiro, quem você levaria para uma ilha deserta?

 O Carlos. O Drummond. O Carlos Drummond de Andrade e o mundo inteiro estaria comigo naquela ilha deserta.

− VOU LHE DAR OUTRA CHANCE DE ESCOLHER MAIS UMA PESSOA: Giselle Ribeiro, quem mais você levaria para uma ilha deserta?

  A Cléo. A Busatto. A Cléo Busatto e juntas iríamos oralizar as histórias escritas nas pedras daquela ilha deserta.

 

− Sua ilha não é mais deserta, mas nela ainda há um espaço vazio.
Giselle Ribeiro essa é a sua última chance de povoar totalmente a ilha não mais deserta, quem, por fim, você levaria para aquela ilha de antes tão deserta?

  O Manoel. O Manoel de Barros. O meu mestre na arte de pegar delírio. Porque viver só de limites cansa imensamente! E lá, na companhia de Carlos, Cléo e Manoel:

"1. Uma rã me pedra.
2. Um passarinho me árvore.
3. Os jardins se borboletam.
4. Folhas secas me outonam."

Já não estou mais só naquela ilha antes tão deserta!



Pluft.

O gênio some e a louca faz uma oração bem antes de sumir também para aquela ilha que não mais será deserta:

ORAÇÃO PARA OS HABITANTES DA MINHA ILHA:
depois de escolher Carlos, Cléo, Manoel (e Clarice escondida no bolso) para ocuparem a sua ilha deserta, Giselle Ribeiro faz uma oração:


Nossa Senhora da Gramática, livrai o poeta do seu corte, da sua afiada faca. Deixai o poeta ousar, arriscar, criar, inventar seu estilo. As coisas são assim: língua de poeta é bicho irado, sempre livre e querendo ir contra a lógica da língua oficial. Por isso, Nossa Senhora da Gramática, livrai o poeta do seu corte, da sua afiada faca.

Nossa Senhora da Gramática, ouço Victor Hugo falando do sublime e do grotesco e penso também lhe dizer:
"as línguas são como o mar, oscilam sem parada. Num certo momento, deixam uma costa no mundo do pensamento e invadem uma outra. Tudo o que suas ondas assim o abandonam seca e se apaga no solo. p.81."
Penso lhe dizer isso, Nossa Senhora da Gramática, porque língua de poeta é bicho irado, não vacinado, ela não se fixa e não se fixará.
Nossa Senhora da Gramática, também sou poeta e em nome de tantos outros eu peço: não deixai queimarem as duas asas de Pégaso. Não deixai. Não deixai, Nossa Senhora da Gramática, não deixai. Amém.
 
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ACORDEI COM UMA VONTADE ARDENTE DE TE DELATAR AO MUNDO

Colagem de Geórgia Marques antes de desbotar seus glóbulos
                                                         para ler ouvindo "haja o que houver".
 
          Eu, amiga da tua juventude primeira, pousei meus olhos nos teus glóbulos negros naquele tempo de bem antes, visitei a tua casa, a que vivia teu corpo físico e a que vivia teu corpo poético. E de lá pra cá, o tempo cerrou com lâmina afiada o fio do nosso destino.
         Anos passaram e a minha casa poética esticou os seus compartimentos para abrigar tantos outros nomes: Lya Luft, Carlos Drummond, Manoel de Barros, Ney Ferraz Paiva, Rilke, Cléo Busatto, Marina Colasanti, Clarice Lispector, Lilia Chaves, Affonso Romano de Sant’Anna, Hilda Hilst, Fernanda Young, Viviane Mosé, Paulo Vieira.
         Mas de você quase nada fiquei sabendo ao longo desses anos.
         Outro dia, aquela lâmina cegou e o fio do nosso destino foi aceso novamente.
         Ontem te vi fazendo crochê e tricô e vi também a minha ausência de consolo. O tempo e sua lâmina afiada deixaram teus glóbulos negros ao sol para quarar, por isso essa falta de apetite, essa magreza de alma.
          Hoje vim te alimentar com um chá da folha dos teus glóbulos negros, antes de desbotar, pensando te reinventar:
 
ORAÇÃO AO SUPREMO
 
deus calai
      deus do et caetera
            talvez do infinito
                     deus de longe
                             com fumaça e vento
                                     deixai tombar calcinhas
                                                 diluir carvão
                                                     dúvida dos pássaros
        deus moeda deus
                limpai os olhos
                    de vossas nuvens.
                           
          E te peço, neste nosso novo tempo:
− Geórgia Marques, bebe mais uma xícara do teu chá, sem pensar em parar.
 
p.s.1. ORAÇÃO AO SUPREMO, poema de Geórgia Marques, do livro Glóbulos Negros, 1995. p.47)
p.s.2 Cerrar (com C) simbolizando fechar, quase definitivamente, a passagem da comunicação entre a mulher Geórgia e o seu fazer artístico, pois que nem mesmo a lâmina afiada poderá cortar e fazer verter todo o sangue, a vida poética da mulher Geórgia Marques.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

AFROUXANDO OS LAÇOS DA DOR

Geórgia Marques e os laços apertados da tristeza.

          Ela tem uma artista guardada dentro dela, que tirou férias infindáveis.
          E eu NÃO me conformo com isso!
          Ouvi dizer, ao longe, que um dia ela acordou com os olhos escorrendo tristeza por todos os lados e nem mesmo era um dia nublado do lado de fora dela.
          Mas quando cheguei perto dela, minha alegria empurrou a tristeza dela um pouco para o lado. E depois um pouco mais, até fazer a tristeza dela cair no precipício.

          A tristeza dela se desequilibrou e caiu... Plano executado.

         Coitadinha! Com a queda, a tristeza dela fraturou três costelas.
         Depois disso, parecia que o sol brilhava novamente. O sol brilhava dentro e fora dela.
          Tudo porque minha alegria empurrou a tristeza dela.
          Insensível essa minha alegria, não prestou socorro à tristeza dela.
          Por isso, ela voltou a sorrir embriagada com a nossa antiga alegria.
          E então percebo qual a função de ser humano senão dar, ao outro, o ouvido e, quando possível, puxá-lo para bem longe do precipício.


P.S. Texto feito para fazer acordar a poeta e artista visual que mora bem dentro da mulher Geórgia Marques. Porque tem coisas nessa vida que eu não me conformo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DAS RIQUEZAS DA MEMÓRIA

Profa. Juruema Bastos e Giselle Ribeiro - em setembro de 1993.

                                             “Numa revoada azul de pássaros cantando,   
                                             descem-me ao coração as saudades.”
                                                                                           Paul Verlaine

           Esse mundo bem mais que moderno nos deu de presente “um andar solitário entre a gente”.

          ...mas, eu venho de um tempo em que Ensinar rimava perfeitamente com Amar. E pela ordem natural da história Ensinar e Amar jamais formavam rima pobre, porque o coração era mais esperançoso, dentro dele havia riqueza que não se comprava, porque também não se vendia.

          Eu venho de um tempo em que a primavera parecia morar dentro das Pessoas (Professores) de Letras. Nesse tempo, eu via flores saindo das bocas sempre que de lá Camões se pronunciava pelos olhos e pela voz das Pessoas de Letras e das mesmas vozes saia sempre um “nunca contentar-se de contente”.

          Eu venho de um tempo de NÂO competir, mas de dividir, trocar saberes. E nesse tempo não havia espaço para se sentir Senhor de todo conhecimento, porque o conhecimento naquele tempo, bem sabíamos, era sempre um rio seguindo o seu fluxo e renovando as suas águas.
       
         Desse tempo, eu tenho grandes saudades...

p.S. Em memória da Profa. Juruema Bastos, uma das Pessoas de Letras daquele tempo.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

TRUQUES E RETRUQUES DOS BEIJOS DE PAULO

há beijos prolongados que sempre deviam ser dados


          No beijo primeiro fomos mais cordiais. Mansamente ele foi se aproximando e mansamente eu também me fiz ser visto por ele...

          As horas que vieram depois foram marcadas pelo avanço do meu querer devorá-lo: “sugar e ser sugado”.

           Dias depois marquei encontro com ele no mesmo lugar e os beijos eram tantos que uma marcha parecia tocar sempre que a minha língua tocava na língua dele.

          Pedia aos céus para o tempo parar. Os céus não me ouviam. Então esperava ansioso o outro dia. E lá estávamos ele e eu, viciados pelo tempo todo nosso, só nosso. Um tempo todo nosso.

         Sabia que começara a perder a cabeça, porque nada mais tinha tamanho valor. Minha cabeça era povoada por ele, meus cabelos formavam ondas sonoras vindas da voz dele me falando ao ouvido. Um vendaval de frases bem arrumadas, sabedoras do que dizer, de como dizer tudo o que vira nesse mundo tão grande e entregava aos meus ouvidos, na forma reorganizada.

          Outro dia cheguei às margens daquele mesmo rio do nosso primeiro encontro e desejoso dele, procurei:

          − Paulo, você está aqui?

          − Estou no lugar que você me deixou, naufragado nesse estranho coração.

          “e quando limosa
           nuvem forasteira
         alcançou o gigante
                sem cabeça
                    fez-se
              no horizonte
                  a árvore
                  primeira.”

              De beijá-lo e beijá-lo, minha língua ficou viciada da língua dele, do truque dele. E ainda hoje, no retruque dele, insisto acomodar a minha voz. E da primeira árvore derrubada, a minha língua pede para ser as páginas escritas por ele.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

QUE GOSTO TEM O BEIJO, A LÍNGUA DE FOUCAULT?

O homem, o touro atrás do livro...

            Sempre soube disso:

          − Ele é bem difícil!

          E para o nosso primeiro encontro me protegi como pude. Usei até óculos escuros, pensando não ter a alma invadida.

          Mas desde o primeiro encontro, ele se entregou a mim como os filhos rompem as entranhas da mãe e caem no mundo.

          Ele não sabia nada de mim. Eu bem pouco dele sabia. E ele foi logo se entregando a mim com suas vírgulas e seus pontos de não parágrafos, suas interrogações sedutoras e embriagantes.

          O que todos me disseram de nada serviu:

          − Ele é bem difícil.

          Fui comedido e medindo os passos cheguei até o impossível para não saber voltar...

          Por Dédalo e Ícaro as palavras dele têm mais de 1300 compartimentos e nelas eu permaneço abrigado e desejoso de nelas me manter como um hóspede, um convidado.

          Então ele acha muito bom me manter preso nas suas palavras e fazer de mim o seu homem, o seu  touro.

          Devo advertir:

          − Fugirei de Teseu enquanto força tiver, porque o beijo de Foucault me reconstrói como touro e me desperta como homem.

         Eu sou a astúcia e a força, o homem e o touro. Sou minotauro e devo ficar preso nas vírgulas e pontos de não parágrafos, nas interrogações sedutoras e embriagantes de Foucault, enquanto não souber voltar, porque amo cada beijo dele dado em mim, sempre que percorro o labirinto das suas palavras.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O BEIJO DE AMOR E AS OBRIGAÇÕES DE ANE


        Jamais fui Gustav Klimt, embora naquele dia tivesse me vestido para ser dele, para ser a sua Adele ou um jardim florido feito para mais um retrato.

         Mas naquele dia eu estava deitada entre os lençóis das obrigações escolares, a obediência de te beijar com tempo certo e depois de tudo ter que contar a notícia para uma classe inteira.

          Naquele dia eu preferia ser um quadro na parede da escola. Naquele dia eu queria muito ser só “O beijo” de Klimt ou o “O Retrato de Adele Bloch-Bauer” e permanecer só ali, na parede da escola, insinuando não dizer nada e ao mesmo tempo dizendo tanto.

          Mas sempre fui obediente e me tranquei no quarto contigo e deitados experimentamos nos tocar. Passei a língua nos dedos e extasiada virava os olhos no movimento das tuas páginas também viradas. E com o forte propósito de não mais te largar, para que outras não pousassem os olhos de desejo sobre ti, mantive por todas as horas daquele dia, a porta do quarto trancada.

           Então uma voz, vinda não sei dizer de onde, me empurrou para dentro da tua boca outra vez e tantas outras vezes em um só dia.  De lá pra cá, a voz persiste me dizendo baixinho:

         : havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. O amor com o que vem junto: ciúme.

        Tudo o que eu ouvia falar de ti guardei em um cofre e joguei ao mar. Tua voz me diz, até os tempos de hoje, que é preciso te provar para te saber. É preciso te beijar como se o mundo fosse acabar ontem, porque viver é urgente. E todos os beijos devem ser iguais ao primeiro, quando a tua boca inundou a minha e:

          De olhos fechados entreabriu os lábios e colocou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
          Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar.

         Depois de tudo, eu já fui tantas, mas poucas bocas beijei com o fervor daquele primeiro beijo.  


quarta-feira, 24 de julho de 2013

O BEIJO DE PEDRO FECHA OS PORTÕES DO INFERNO

                                     
          Por Hera, guardiã do amor legítimo, quando Pedro me beijou nos olhos a primeira vez, eu vi estrelas, embora fosse uma manhã ensolarada.
          E desde então, cada palavra proferida por Pedro chega a mim como um rio que flui no sentido de um oceano, um corpo de água contínuo e me parte em mares menores. O beijo de Pedro é um oceano quebrando a minha alma.

         Outro dia, Pedro me beijou no período lunar e as estrelas do beijo primeiro de Pedro se multiplicaram em quase mil. Isso tudo porque antes de me beijar deliciosamente, Pedro me disse sussurrando:
               O céu está em verdade aberto, vamos a ele.

          Não sei como chegar até as estrelas sem temor, mas há beijos que nos levam até Andrômeda, Alfa e Beta como se seguíssemos viagem em uma carruagem alada puxada por cavalos de fogo.
          É assim o beijo de Pedro: um seguir viagem na carruagem do rei Sol e cruzar, ponta a ponta, todo o céu.

        Eu já fui mais terrena, mas toda vez que a boca do Pedro se volta para a minha, é como se todos os sonhos do mundo ocupassem a minha cabeça e de dentro dela saísse uma outra voz que diz assim:
        Ainda vou escalar as montanhas e ficar mais perto das estrelas

       E então, é só fechar os olhos e encostar os meus lábios nos lábios do Pedro que todos os sonhos são a minha verdade. E outros sussurros chegam aos meus ouvidos:
       −Suba, vamos para a casa de Andrômeda.

         Montada nas costas da águia, fui até o ponto mais alto do céu. Então, percebi que estava voando pela Via Láctea. Juro que vi Faetonte por lá, com os cabelos incendiados, tentando domar cavalos que soltavam fogo pelas narinas. 

            Tudo isso eu juro que vejo no céu da boca de Pedro. Pedro, quando me beija, me leva ao Cruzeiro do Sul.

          É bem verdade que eu não sei como chegar até as estrelas sem temor, mas nos beijos de Pedro eu faço o caminho que todos fazem, quando beijam com amor.