terça-feira, 22 de outubro de 2013

O GÊNIO E A LOUCA

E o gênio se manifesta depois do contato das mãos de Aladim com a lâmpada maravilhosa. E desse esfregar de mãos três desejos são concedidos à poeta Giselle Ribeiro:

− Giselle Ribeiro, quem você levaria para uma ilha deserta?

 O Carlos. O Drummond. O Carlos Drummond de Andrade e o mundo inteiro estaria comigo naquela ilha deserta.

− VOU LHE DAR OUTRA CHANCE DE ESCOLHER MAIS UMA PESSOA: Giselle Ribeiro, quem mais você levaria para uma ilha deserta?

  A Cléo. A Busatto. A Cléo Busatto e juntas iríamos oralizar as histórias escritas nas pedras daquela ilha deserta.

 

− Sua ilha não é mais deserta, mas nela ainda há um espaço vazio.
Giselle Ribeiro essa é a sua última chance de povoar totalmente a ilha não mais deserta, quem, por fim, você levaria para aquela ilha de antes tão deserta?

  O Manoel. O Manoel de Barros. O meu mestre na arte de pegar delírio. Porque viver só de limites cansa imensamente! E lá, na companhia de Carlos, Cléo e Manoel:

"1. Uma rã me pedra.
2. Um passarinho me árvore.
3. Os jardins se borboletam.
4. Folhas secas me outonam."

Já não estou mais só naquela ilha antes tão deserta!



Pluft.

O gênio some e a louca faz uma oração bem antes de sumir também para aquela ilha que não mais será deserta:

ORAÇÃO PARA OS HABITANTES DA MINHA ILHA:
depois de escolher Carlos, Cléo, Manoel (e Clarice escondida no bolso) para ocuparem a sua ilha deserta, Giselle Ribeiro faz uma oração:


Nossa Senhora da Gramática, livrai o poeta do seu corte, da sua afiada faca. Deixai o poeta ousar, arriscar, criar, inventar seu estilo. As coisas são assim: língua de poeta é bicho irado, sempre livre e querendo ir contra a lógica da língua oficial. Por isso, Nossa Senhora da Gramática, livrai o poeta do seu corte, da sua afiada faca.

Nossa Senhora da Gramática, ouço Victor Hugo falando do sublime e do grotesco e penso também lhe dizer:
"as línguas são como o mar, oscilam sem parada. Num certo momento, deixam uma costa no mundo do pensamento e invadem uma outra. Tudo o que suas ondas assim o abandonam seca e se apaga no solo. p.81."
Penso lhe dizer isso, Nossa Senhora da Gramática, porque língua de poeta é bicho irado, não vacinado, ela não se fixa e não se fixará.
Nossa Senhora da Gramática, também sou poeta e em nome de tantos outros eu peço: não deixai queimarem as duas asas de Pégaso. Não deixai. Não deixai, Nossa Senhora da Gramática, não deixai. Amém.
 
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ACORDEI COM UMA VONTADE ARDENTE DE TE DELATAR AO MUNDO

Colagem de Geórgia Marques antes de desbotar seus glóbulos
                                                         para ler ouvindo "haja o que houver".
 
          Eu, amiga da tua juventude primeira, pousei meus olhos nos teus glóbulos negros naquele tempo de bem antes, visitei a tua casa, a que vivia teu corpo físico e a que vivia teu corpo poético. E de lá pra cá, o tempo cerrou com lâmina afiada o fio do nosso destino.
         Anos passaram e a minha casa poética esticou os seus compartimentos para abrigar tantos outros nomes: Lya Luft, Carlos Drummond, Manoel de Barros, Ney Ferraz Paiva, Rilke, Cléo Busatto, Marina Colasanti, Clarice Lispector, Lilia Chaves, Affonso Romano de Sant’Anna, Hilda Hilst, Fernanda Young, Viviane Mosé, Paulo Vieira.
         Mas de você quase nada fiquei sabendo ao longo desses anos.
         Outro dia, aquela lâmina cegou e o fio do nosso destino foi aceso novamente.
         Ontem te vi fazendo crochê e tricô e vi também a minha ausência de consolo. O tempo e sua lâmina afiada deixaram teus glóbulos negros ao sol para quarar, por isso essa falta de apetite, essa magreza de alma.
          Hoje vim te alimentar com um chá da folha dos teus glóbulos negros, antes de desbotar, pensando te reinventar:
 
ORAÇÃO AO SUPREMO
 
deus calai
      deus do et caetera
            talvez do infinito
                     deus de longe
                             com fumaça e vento
                                     deixai tombar calcinhas
                                                 diluir carvão
                                                     dúvida dos pássaros
        deus moeda deus
                limpai os olhos
                    de vossas nuvens.
                           
          E te peço, neste nosso novo tempo:
− Geórgia Marques, bebe mais uma xícara do teu chá, sem pensar em parar.
 
p.s.1. ORAÇÃO AO SUPREMO, poema de Geórgia Marques, do livro Glóbulos Negros, 1995. p.47)
p.s.2 Cerrar (com C) simbolizando fechar, quase definitivamente, a passagem da comunicação entre a mulher Geórgia e o seu fazer artístico, pois que nem mesmo a lâmina afiada poderá cortar e fazer verter todo o sangue, a vida poética da mulher Geórgia Marques.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

AFROUXANDO OS LAÇOS DA DOR

Geórgia Marques e os laços apertados da tristeza.

          Ela tem uma artista guardada dentro dela, que tirou férias infindáveis.
          E eu NÃO me conformo com isso!
          Ouvi dizer, ao longe, que um dia ela acordou com os olhos escorrendo tristeza por todos os lados e nem mesmo era um dia nublado do lado de fora dela.
          Mas quando cheguei perto dela, minha alegria empurrou a tristeza dela um pouco para o lado. E depois um pouco mais, até fazer a tristeza dela cair no precipício.

          A tristeza dela se desequilibrou e caiu... Plano executado.

         Coitadinha! Com a queda, a tristeza dela fraturou três costelas.
         Depois disso, parecia que o sol brilhava novamente. O sol brilhava dentro e fora dela.
          Tudo porque minha alegria empurrou a tristeza dela.
          Insensível essa minha alegria, não prestou socorro à tristeza dela.
          Por isso, ela voltou a sorrir embriagada com a nossa antiga alegria.
          E então percebo qual a função de ser humano senão dar, ao outro, o ouvido e, quando possível, puxá-lo para bem longe do precipício.


P.S. Texto feito para fazer acordar a poeta e artista visual que mora bem dentro da mulher Geórgia Marques. Porque tem coisas nessa vida que eu não me conformo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DAS RIQUEZAS DA MEMÓRIA

Profa. Juruema Bastos e Giselle Ribeiro - em setembro de 1993.

                                             “Numa revoada azul de pássaros cantando,   
                                             descem-me ao coração as saudades.”
                                                                                           Paul Verlaine

           Esse mundo bem mais que moderno nos deu de presente “um andar solitário entre a gente”.

          ...mas, eu venho de um tempo em que Ensinar rimava perfeitamente com Amar. E pela ordem natural da história Ensinar e Amar jamais formavam rima pobre, porque o coração era mais esperançoso, dentro dele havia riqueza que não se comprava, porque também não se vendia.

          Eu venho de um tempo em que a primavera parecia morar dentro das Pessoas (Professores) de Letras. Nesse tempo, eu via flores saindo das bocas sempre que de lá Camões se pronunciava pelos olhos e pela voz das Pessoas de Letras e das mesmas vozes saia sempre um “nunca contentar-se de contente”.

          Eu venho de um tempo de NÂO competir, mas de dividir, trocar saberes. E nesse tempo não havia espaço para se sentir Senhor de todo conhecimento, porque o conhecimento naquele tempo, bem sabíamos, era sempre um rio seguindo o seu fluxo e renovando as suas águas.
       
         Desse tempo, eu tenho grandes saudades...

p.S. Em memória da Profa. Juruema Bastos, uma das Pessoas de Letras daquele tempo.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

TRUQUES E RETRUQUES DOS BEIJOS DE PAULO

há beijos prolongados que sempre deviam ser dados


          No beijo primeiro fomos mais cordiais. Mansamente ele foi se aproximando e mansamente eu também me fiz ser visto por ele...

          As horas que vieram depois foram marcadas pelo avanço do meu querer devorá-lo: “sugar e ser sugado”.

           Dias depois marquei encontro com ele no mesmo lugar e os beijos eram tantos que uma marcha parecia tocar sempre que a minha língua tocava na língua dele.

          Pedia aos céus para o tempo parar. Os céus não me ouviam. Então esperava ansioso o outro dia. E lá estávamos ele e eu, viciados pelo tempo todo nosso, só nosso. Um tempo todo nosso.

         Sabia que começara a perder a cabeça, porque nada mais tinha tamanho valor. Minha cabeça era povoada por ele, meus cabelos formavam ondas sonoras vindas da voz dele me falando ao ouvido. Um vendaval de frases bem arrumadas, sabedoras do que dizer, de como dizer tudo o que vira nesse mundo tão grande e entregava aos meus ouvidos, na forma reorganizada.

          Outro dia cheguei às margens daquele mesmo rio do nosso primeiro encontro e desejoso dele, procurei:

          − Paulo, você está aqui?

          − Estou no lugar que você me deixou, naufragado nesse estranho coração.

          “e quando limosa
           nuvem forasteira
         alcançou o gigante
                sem cabeça
                    fez-se
              no horizonte
                  a árvore
                  primeira.”

              De beijá-lo e beijá-lo, minha língua ficou viciada da língua dele, do truque dele. E ainda hoje, no retruque dele, insisto acomodar a minha voz. E da primeira árvore derrubada, a minha língua pede para ser as páginas escritas por ele.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

QUE GOSTO TEM O BEIJO, A LÍNGUA DE FOUCAULT?

O homem, o touro atrás do livro...

            Sempre soube disso:

          − Ele é bem difícil!

          E para o nosso primeiro encontro me protegi como pude. Usei até óculos escuros, pensando não ter a alma invadida.

          Mas desde o primeiro encontro, ele se entregou a mim como os filhos rompem as entranhas da mãe e caem no mundo.

          Ele não sabia nada de mim. Eu bem pouco dele sabia. E ele foi logo se entregando a mim com suas vírgulas e seus pontos de não parágrafos, suas interrogações sedutoras e embriagantes.

          O que todos me disseram de nada serviu:

          − Ele é bem difícil.

          Fui comedido e medindo os passos cheguei até o impossível para não saber voltar...

          Por Dédalo e Ícaro as palavras dele têm mais de 1300 compartimentos e nelas eu permaneço abrigado e desejoso de nelas me manter como um hóspede, um convidado.

          Então ele acha muito bom me manter preso nas suas palavras e fazer de mim o seu homem, o seu  touro.

          Devo advertir:

          − Fugirei de Teseu enquanto força tiver, porque o beijo de Foucault me reconstrói como touro e me desperta como homem.

         Eu sou a astúcia e a força, o homem e o touro. Sou minotauro e devo ficar preso nas vírgulas e pontos de não parágrafos, nas interrogações sedutoras e embriagantes de Foucault, enquanto não souber voltar, porque amo cada beijo dele dado em mim, sempre que percorro o labirinto das suas palavras.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O BEIJO DE AMOR E AS OBRIGAÇÕES DE ANE


        Jamais fui Gustav Klimt, embora naquele dia tivesse me vestido para ser dele, para ser a sua Adele ou um jardim florido feito para mais um retrato.

         Mas naquele dia eu estava deitada entre os lençóis das obrigações escolares, a obediência de te beijar com tempo certo e depois de tudo ter que contar a notícia para uma classe inteira.

          Naquele dia eu preferia ser um quadro na parede da escola. Naquele dia eu queria muito ser só “O beijo” de Klimt ou o “O Retrato de Adele Bloch-Bauer” e permanecer só ali, na parede da escola, insinuando não dizer nada e ao mesmo tempo dizendo tanto.

          Mas sempre fui obediente e me tranquei no quarto contigo e deitados experimentamos nos tocar. Passei a língua nos dedos e extasiada virava os olhos no movimento das tuas páginas também viradas. E com o forte propósito de não mais te largar, para que outras não pousassem os olhos de desejo sobre ti, mantive por todas as horas daquele dia, a porta do quarto trancada.

           Então uma voz, vinda não sei dizer de onde, me empurrou para dentro da tua boca outra vez e tantas outras vezes em um só dia.  De lá pra cá, a voz persiste me dizendo baixinho:

         : havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. O amor com o que vem junto: ciúme.

        Tudo o que eu ouvia falar de ti guardei em um cofre e joguei ao mar. Tua voz me diz, até os tempos de hoje, que é preciso te provar para te saber. É preciso te beijar como se o mundo fosse acabar ontem, porque viver é urgente. E todos os beijos devem ser iguais ao primeiro, quando a tua boca inundou a minha e:

          De olhos fechados entreabriu os lábios e colocou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
          Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar.

         Depois de tudo, eu já fui tantas, mas poucas bocas beijei com o fervor daquele primeiro beijo.  


quarta-feira, 24 de julho de 2013

O BEIJO DE PEDRO FECHA OS PORTÕES DO INFERNO

                                     
          Por Hera, guardiã do amor legítimo, quando Pedro me beijou nos olhos a primeira vez, eu vi estrelas, embora fosse uma manhã ensolarada.
          E desde então, cada palavra proferida por Pedro chega a mim como um rio que flui no sentido de um oceano, um corpo de água contínuo e me parte em mares menores. O beijo de Pedro é um oceano quebrando a minha alma.

         Outro dia, Pedro me beijou no período lunar e as estrelas do beijo primeiro de Pedro se multiplicaram em quase mil. Isso tudo porque antes de me beijar deliciosamente, Pedro me disse sussurrando:
               O céu está em verdade aberto, vamos a ele.

          Não sei como chegar até as estrelas sem temor, mas há beijos que nos levam até Andrômeda, Alfa e Beta como se seguíssemos viagem em uma carruagem alada puxada por cavalos de fogo.
          É assim o beijo de Pedro: um seguir viagem na carruagem do rei Sol e cruzar, ponta a ponta, todo o céu.

        Eu já fui mais terrena, mas toda vez que a boca do Pedro se volta para a minha, é como se todos os sonhos do mundo ocupassem a minha cabeça e de dentro dela saísse uma outra voz que diz assim:
        Ainda vou escalar as montanhas e ficar mais perto das estrelas

       E então, é só fechar os olhos e encostar os meus lábios nos lábios do Pedro que todos os sonhos são a minha verdade. E outros sussurros chegam aos meus ouvidos:
       −Suba, vamos para a casa de Andrômeda.

         Montada nas costas da águia, fui até o ponto mais alto do céu. Então, percebi que estava voando pela Via Láctea. Juro que vi Faetonte por lá, com os cabelos incendiados, tentando domar cavalos que soltavam fogo pelas narinas. 

            Tudo isso eu juro que vejo no céu da boca de Pedro. Pedro, quando me beija, me leva ao Cruzeiro do Sul.

          É bem verdade que eu não sei como chegar até as estrelas sem temor, mas nos beijos de Pedro eu faço o caminho que todos fazem, quando beijam com amor.         

terça-feira, 16 de julho de 2013

O SEGUNDO BEIJO OU O BEIJO MOLHADO DA Sra. WOOLF

Enquanto isso, ele beija a Sra. Woolf.
          Era um jovem, um rapazinho iniciante na arte de beijar quando a Sra. Woolf  resolveu ensiná-lo e, abrindo as suas páginas com ardor ela saltou até ele dizendo mansamente:

O Sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos poucos, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então, o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar.

         Esse era só um dos sucessivos beijos que ela, a Sra. Woolf, lhe daria. Ele correspondeu, ainda que o vermelho das bochechas tomasse conta de todo o seu rosto naquele momento. Ele correspondeu. Queria muito aprender a beijá-la com amor e assim, perseguiram-se mutuamente.

        E outros tantos beijos foram dados e cada beijo, um novo aprendizado. Foi assim que o jovem aprendeu a arte de beijar com ardor e com amor. Bastou a Sra. Woolf lhe dizer no ouvido e mansamente:

Quando se aproximavam da praia, as barras erguiam-se, empilhavam-se e quebravam-se, espalhando na areia um fino véu de água esbranquiçada.

          Era o beijo molhado de ondas que ela entregava às bochechas vermelhas do rapazinho e o fino véu de água esbranquiçada saia bem de dentro dele.

          Ele aprendeu a arte de beijar com amor. Ele aprendeu a gozar. Enquanto ela, a Sra. Woolf, todos os dias abria as suas páginas para a entrada dele.

          Depois dos beijos molhados desses dias, ele sempre chegava em casa afoito, apressado para largar tudo que tivera nas mãos e se entregar ao abraço dela. E desde então, a Sra. Woolf sabia que enlaçara o jovem e que os outros dias seriam sempre assim, como as ondas:

As ondas paravam e depois voltavam a erguer-se, suspirando como uma criatura adormecida, cuja respiração vai e vem sem que disso se aperceba.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O PRIMEIRO BEIJO


O beijo de palavras
          Eu vou tocar os teus lábios com a minha palavra e a força do meu beijo  vai fazer entrar em ti a descoberta de quem eu sou para ti.

          Eu sou para ti as primaveras todas, os outonos tantos, os invernos tontos e o verão santo que te aquece e ilumina onde luz nenhuma ousou a passagem.

          Eu vou te tocar nos lábios mordendo, mordendo e mordendo, mas sem ferir tanto, porque tigre já fui, hoje sou só o espanto.

          E no passeio pela tua boca, vou ocupar outros espaços de ti: língua, dente, voz e grito. Eu sou para ti só isto: o teu grito.
       
         Eu vou te tocar nos lábios com a minha palavra e se isso, a mim e a ti for possível, será o nosso beijo de almas.
   
         Disse o livro ao leitor.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

QUEM DESLIGOU OS VESTILADORES DO CÉU?


          Houve um tempo que, em Belém, se marcava encontro sempre antes ou depois da chuva. Acho que o céu chorava de emoção sempre que as pessoas marcavam seus encontros e seguiam às praças para namorar, conversar. Tempo esse que bem poucos ouvem falar.

          Hoje se ouve falar muito do tempo de não se encontrar. Tempo de se falar sem se ver, sem sentir o cheiro da voz do outro, sem saber que cor tem os olhos do outro, se dos olhos de quem fala saltam mentiras ou verdades.

         Do tempo em que se marcava encontro antes ou depois da chuva, eu tenho guardado na memória o barulho do vento fechando as portas e as janelas das casas ou balançando as folhas das árvores da cidade em que ainda moro. E bem dentro da mesma memória, sei do frescor que o vento nos entregava naquele tempo já quase perdido.

         Quem desligou os ventiladores do céu de Belém? Não pagamos a conta com a moeda certa? O sol por aqui brilha para todos até rachar o solo das nossas emoções. Enquanto isso, andamos muito irritados, quase sempre sem tolerância para os imprevistos, não pedimos mais passagem com as palavras mágicas: com licença e obrigado. Palavras deletadas como o vento de Belém de outrora.
 
        Oh! que saudades que tenho
        Da aurora da minha vida”

E Casimiro de Abreu não sou eu, não sou eu, mas isso é tudo o que por hora me permito dizer.        
    

sexta-feira, 21 de junho de 2013

NAMORAR: Preamar; algumas linhas da minha história de amor.


O círculo do Fogo e do Amor
           dozeDejunho é dia de acender o fogo e deixar a juventude se acomodar em volta dele. E depois de aquietar os ânimos:
          - Professora o que é o amor?

          Diz uma voz vinda da grande roda em volta do fogo.
          Para chegar à pergunta, vamos ao flerte. O flerte começa pelo olhar mais e um pouco mais o outro. Quando se permanece olhando o outro, nas outras horas do dia, então já não é mais flerte, é namoro.
          Eu sei de histórias muito bonitas de flerte e de namoro, mas a minha parece também ser boa para contar hoje. Há quem ainda acredite nas relações intensas que sobrevivem aos temporais sem o grande dano da separação. Então, se assim acontece, o flerte deixa de ser flerte. O namoro deixa de ser namoro. E o Amor ocupa o seu lugar de Rei.
          Foi assim também comigo. Eu comecei provando o doce de algumas escritas poéticas e fui tomando gosto pelo o que provava. Era o flerte acontecendo. E fiquei assim, provando daquele doce repetidamente. Era o namoro acontecendo. Mas de tanto provar o doce repetidamente, eu encontrei o amargo que também existia naquelas escritas poéticas. Nem por isso desisti de provar daquele objeto de degustação. Era o Amor acontecendo.


"Com graças, e muitas, te brindou Afrodite"
 
          De lá pra cá, não há tempo tão ruim que eu não descubra como vencê-lo. Não há leituras permitidas ou proibidas. O que há é um mundo de palavras poéticas me povoando e me dando força para a luta brava desta vida.
          Agora, sigamos até as páginas de “Leituras Proibidas”, escritas por Alberto Manguel, enquanto os versos de Safo e de outros poetas escorrem feito fênix em nossa boca.

p.s. As fotografias que acompanham este texto, foram feitas na aula de Fundamentos da Teoria Literária, no dia doze de junho de dois mil e treze, na Universidade Federal do Pará.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

COMO O SOL DA MEIA NOITE

Siga a seta. A direção da origem.
 Como a lua que se mostra e se esconde seguindo as suas fases. Como o sol que ilumina e aquece acompanhando algumas horas do dia e depois desemboca para o outro lado do mundo no percurso de iluminar aqui e apagar ali. Foram assim, os dois dias do minicurso "Aprendendo a ler Caracol; pequenas lições de leitura literária". Talvez nunca mais se ouça falar nisso...

Você é feito de luz e sombra.
          Mas, por dois dias houve o espaço do silêncio interno que pretendia ser preenchido com a nossa própria voz, a voz que habita os nossos porões e que se cala muito mais para ouvir o outro.
          Estabelecer contato com o avesso da pessoa: feche os olhos, apague a sua luz de fora, acenda a sua luz de dentro, se procure e se reconheça e só depois disso, acenda a luz de fora, volte pleno de você, acorde para a vida como um movimento de evolução concebido por você.
          O leitor viu mais de perto “Isso não é um livro. Isso é um Caracol”. E provou a imagem da capa, contracapa, título, ouviu a orelha falar, com suavidade, os caminhos a serem conquistados, reconheceu CL e saiu cambaleando, embriagado de outras vozes, ouviu palavras com outras funções, ditas não na nossa vida cotidiana. E dali, ele saiu embriagado de palavras que saltam do livro para a sua boca.
         E foi assim que Henrique Lobato, um dos inscritos no minicurso, roubou a voz da autora para falar do que viveu nesses dois dias:

                                    UM VAGA-LUME E UM CARACOL

Siga a seta e acenda a sombra.
                              Ela começou tirando nossos sapatos.
                              E foi deitando-nos um por um.
                              Aquietando os corpos em seu ato
                              De serenata, de momento incomum.

                              Ela veio em seu tear de palavras
                              Colocando os versos em seus lugares.
                              Subimos e descemos as escadarias
                              Nessa morada misteriosa do ser.

                              Moinho, Moinho e o dia vem chegando.
                              E assim ela foi fazendo de mim caracol
                              Interior, Interior redemoinho girando.
                              Sem dar nó, foi fazendo de nós girassóis.

                              Ao som desse hino a noite vem vindo.
                              E assim ela fez de mim um vaga-lume.
                              Negrume, negrume morada dos monstros.
                              Noite, Noite onde moram os nossos outros.

                              Laço na palavra. Não era noite nem dia.
                              Não era mais vaga-lume nem caracol.
                              Era apenas eu que voltava à rotina, era vida.
                              Mas agora existia um vaga-lume e um caracol.

                                                          ***
P.S. Depois disso, Henrique, igual a Orfeu, silenciou a autora derramando nela toda a sua emoção. E o adeus tomou conta do espaço, sem precisar ser dito.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

UM DOS GRANDES SEGREDOS DA FELICIDADE


Passando pelas estradas do nordeste, ouvi uma cena cantar ao meu ouvido. A imagem saltou e preencheu todos os espaços da janela do automóvel que me transportava e eu cantei com suavidade:
Felicidade é uma cidade pequenina
É uma casinha, é uma colina
Qualquer lugar que se ilumina
Quando a gente quer amar.


Tive a nítida certeza do endereço da Felicidade. Quando procurada na capital, não encontrei e me aventurei pelas estradas do nordeste do Brasil. Por lá havia grandes hotéis e casinhas feitas de barro e palha. Em volta dos hotéis, outros e outros arranha-céus. Em volta das casinhas, tantas outras casinhas e senhoras que se chamavam de vizinhas.
E a música tocava repetidamente dentro dos fios que ligavam meu pensamento:

Felicidade é uma cidade pequenina
É uma casinha, é uma colina
Qualquer lugar que se ilumina
Quando a gente quer amar.

Ainda na estrada, Santa Luzia do Paruá me ensina a escrever, sem pena, o que todos nós procuramos. E foi assim que eu trouxe dentro do automóvel, a minha nova coleção de imagens de Felicidade:
É possível ser feliz morando no Hilton. E é também possível ser feliz morando na casinha de barro e palha, isso tudo de mantivermos limpo e arrumado o interior do nosso interior.