sábado, 29 de dezembro de 2012

AMIGO É INVISÍVEL?


No papel dobrado vários nomes de pessoas conhecidas daquela roda.
     E de repente uma voz anuncia:
     − Vamos tirar o nosso amigo invisível.
     Olhei para todos na roda e tentei NÃO ver alguém para saber quem, daquele meio, era o meu “amigo invisível”.
     Não entendo muito bem certas brincadeiras, mas entrei no jogo apostando que o nome que eu tirasse deveria ser de um amigo e que, embora a brincadeira determinasse “invisível”, deveria ser alguém que nas horas alegres ou tristes, ele apareça diante de mim como um Gênio da lâmpada mágica e me daria a chance de três pedidos, caso eu estivesse triste:

    PEDIDO NÚMERO UM:
● Chorar até secar o poço das águas dos olhos meus;

    PEDIDO NÚMERO DOIS:
● Enfrentar a tristeza com armadura, lança e espada e sair vitoriosa como qualquer herói das antigas histórias ouvidas;

    PEDIDO NÚMERO TRÊS:
● Jogar tudo para o alto e começar outra vez.

     Decididamente o nome dessa brincadeira deveria ser amigo mais que visível. Pois um amigo está sempre, ou quase sempre, pronto a nos cobrir de força e coragem e quando precisamos, ele aparece visivelmente ao nosso lado.
    Pelo menos é assim que acontece com a minha Ciranda de Amigos Visíveis, muito bem visíveis.

      Agora pensando mais um pouco no assunto, invisível deve ser o inimigo, porque nunca se mostra da forma que é.

 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

E SE DE REPENTE NO NATAL...

E se, de repente, uma porção mágica de Deus ocupasse todos os espaços da nossa cabeça e escorresse até os nossos corações. E assim ficasse, por algum tempo, ocupando os nossos pensamentos e as nossas emoções com um único verbo, relembrando o princípio de tudo?
E se dos olhos das pessoas escorresse esse verbo, das suas bocas saltasse o mesmo verbo, no sangue das suas veias circulasse o verbo prometido?
Se tudo isso deixasse de ser só um sonho e no dia de Natal cantássemos todos, numa só voz, o mesmo mantra?
Deus é amor, eu sou amor.
Se tudo não fosse um sonho, o verbo Amar seria por todas as pessoas conjugado e o filho de Deus, em todos nós nasceria assim, de repente no Natal.
Mas esse foi só o meu sonho que pensei compartilhar. Enquanto isso, a bruta realidade me faz acordar...
 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

APERTE O BOTÃO QUE A VIDA ACENDE

 
Meninas que sonham ser passarinho e comem ameixa da árvore.
                      
“A vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende”
 

Era o começo de novembro, primeiro dia de aula, quando eu levei meus alunos para a Beira do Rio.
A Universidade Federal do Pará, meu porto profissional, fica bem no meio da desaguação do Norte. A paisagem local é linda, mas é preciso saber o que fazer com ela.
E todo início de semestre, é a mesma história, eu levo meus alunos de Teoria do Texto Poético para aprenderem o que fazer com a paisagem de fora e de dentro deles. Lá, nós ficamos de pés no chão, de ouvidos e narinas bem abertos para escutar a cor dos passarinhos. Afinal, foi isso que aprendemos com Manoel de Barros.
Os pés plantados no chão da aluna
E foi assim que fomos para a Beira do Rio fazer umas práticas radicais de esporte poético. E foi assim também, que chegamos ao poema de Apollinaire:


E eles foram para a beira. E eles voaram.


“Venham para a beira.
Não podemos. Temos medo.
Venham para a beira.
Não podemos. Vamos cair.
Venham para a beira.
E eles foram
 E ele os empurrou.

E eles voaram”

Às vezes é preciso sair da beira, às vezes é preciso voar, às vezes é preciso empurrar para a vida se acender.
Eu confesso que vez por outra gosto de sair da normalidade dessa vida, das quatro paredes da sala de aula. Porque andar sempre na linha, cansa a costura da minha pele!

E para você que me lê, nesse momento, eu espero que no Ano Novo você aperte o botão e a sua vida acenda. É só isso que eu desejo para você que agora  me lê.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

FUI TER UM CASO COM A PALAVRA. VOLTO ASSIM QUE PUDER.

Giselle Ribeiro & Cléo Busatto
− Já dá?
− Não. Ainda não dá.
− E agora, dá?
− Agora também não.
− Mas quando você acha que dá para voltar?
− Não sei. Não sei. Deixa eu te contar:

          No começo foi assim, eu fui flertando muito discretamente com ela.
Ela me parecia cheia de curvas e formas em abundância de certeza, às vezes, ela também gostava de manter as certezas todas suspensas.

          Uma verdadeira dama!

Cléo Busatto me ensinado a escutar o silêncio da chuva do Norte.
          Quando eu queria afago, ela depositava em mim um jarro cheio de afago.
          Quando eu precisava de sustentação, ela me colocava no chão.
          Por isso eu quis sair do flerte para Namorar a Palavra. E nosso Caso passou a ser Sério.

          Depois disso, me mandei para Curitiba e a Cléo Busatto, que é mãe da palavra dita e escrita me entregou as chaves e oficializou a relação.

          E de repente – tudo passou. A fome passou. O frio passou. O cansaço também passou. Só meu coração batia compassadamente anunciando o meu Caso com a Palavra.

         Desculpe dizer, sei que vim ter um Caso com a Palavra, por isso namorei e casei com ela.

          E não consigo, não quero, não posso mais voltar.
 
P.S. Texto tecido depois dos dias 26 e 27 de novembro do ano de 2012, período em que fui para Curitiba fazer o Curso de Caso com a Palavra, curso mediado pela Escritora e Contadora de Histórias Cléo Busatto, por quem tenho imensurável orgulho de ser leitora.
          Obrigada Cléo Busatto pelas horas de encantamento.


sábado, 24 de novembro de 2012

APRENDENDO A LER GENTE. PRIMEIRA LIÇÃO.

A leitura do mundo precede a leitura da palavra.
                                                                                         Paulo Freire
 
      Saio de São Paulo com uma boa leitura de pessoas. Foram alguns dias em metrôs, ônibus, ruas, praças, teatro e isso tudo lendo gente. Gente parada esperando o metrô, gente andando nas ruas, gente sentada ou em pé nos coletivos daquela cidade gigante.
    Ler gente me fascina, sobretudo quando estou longe de casa, vejo as pessoas e seus gestos tão díspares da minha terra.
    Na grande São Paulo meu olhar encontra gente em pé nos coletivos e sentindo o prazer de ler. Elas parecem isoladas ou protegidas no lugar em que estão. Talvez seja em outro país, talvez seja em outra cidade, talvez seja simplesmente em um tempo muito futuro para a nossa realidade, mas a verdade é que elas foram transportadas para aquele espaço da leitura e o que era desconforto, se estabeleceu como uma boa morada.
     Por isso, meu alvo agora não é a mulher no ônibus sentada fazendo tricô, ou a outra sentada que me olha neste momento, mas a moça lendo em pé no ônibus, pois ela percebe que chegou o seu ponto, dá o sinal de parada solicitada, caminha até a porta do coletivo para esperar o motorista parar, isso tudo sem desistir da sua proteção e se mantém lendo em pé, na porta de descida daquele coletivo.
    O tempo em São Paulo dá o lucro certo para quem sabe empregá-lo.
    Ah, como eu queria que esse mundo se estendesse até o meu!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

SÓ VIM VERIFICAR O PULSO DE SÃO PAULO

                             Essa é a Senhora Jorge B. Xavier como eu imagino

NÃO é verdade que o tempo em São Paulo é uma bomba pronta para explodir. Bem no meio desses dias, tiro uma folha da minha agenda para olhar as pessoas de perto. Em são Paulo tem gente com muito bom humor que ri das perguntas tantas que fazemos. Quando dizemos, por exemplo, a um guarda municipal:

− Moço como faço para bater lá na praça?
Ele sorri do que ouvira e diz:

− Mas o que a praça lhe fez para você querer bater nela?
E em seguida vem uma boa explicação de como chegar ao nosso destino e junto da explicação um riso bem alegre de quem vive muito bem nessa terra, que é gigante.

Viro a página da agenda e nela cabe a Senhora Jorge B. Xavier, de pé a espera do metrô Barra Funda ou quem sabe ainda a procura de uma dignidade. Jamais pensei que nessa viagem pudesse encontrar alguém que saltasse das páginas de Clarice Lispector e coubesse naquela estação de metrô e me sorrisse com discrição e simpatia, tudo ao mesmo tempo.
Eu sabia que a conhecia. Então disse para algumas pessoas amigas que comigo estavam:

− É ela. A Senhora Jorge B. Xavier que me sorriu e sentou bem à minha frente.
NÂO hesitei e registrei a imagem real de uma personagem ficcional.





quarta-feira, 14 de novembro de 2012

DEPOIS DOS NOVE MESES

                                         Diane Arbus
 
          Vês? Ele ainda tem crescido dentro de mim. Suas mãozinhas se movem e me indicam a direção que devo seguir. O coração também já bate. O pulmão sopra notícias vindas bem de dentro, e de fora também. Coisas muito novas e eu me surpreendo.
            Os médicos desistiram do meu caso, acham coisa do outro mundo. E ele gosta das impressões médicas e se mantém dentro de mim.
            Quando penso que ele já vai nascer, ele se espreguiça e dorme um pouco, se preparando para as novas formas que ele vai ter quando nascer.
            Em dias de angústia, ligo para o Carlos, um dos pais desta criança, e ele serenamente me diz:

 O filho que não fiz.
 Fez-se por si mesmo.

           Talvez eu espere mais nove meses.
           Não sei. Eu não mando mais em mim. Apenas tenho essa fotografia que ele me mandou, em um sonho, para me manter tranquila e esperando.


sábado, 3 de novembro de 2012

EU MAIOR; UM FILME SOBRE AUTOCONHECIMENTO E BUSCA DA FELICIDADE.

 

           A EXPERIÊNCIA DA PROFESSORA:
 

          Talvez um dia eu saiba definir com mais precisão e não tamanha emoção, o que representa a literatura para mim.

          O que representa fazer literatura e o que representa trabalhar com literatura. Ela sendo o meu momento de prazer e de sobrevivência.

          É uma pena que uma parte grande da humanidade não possa fazer o que mais gosta, em tempo quase integral.

          Eu digo agora, para vocês, que fui premiada. As leis do universo tramaram para me manterem feliz na vida pessoal e profissional.
 

          O QUE EU CONSIDERO BELEZA?
 

          Deus sabe o quanto de alegria mora em mim quando um aluno ou aluna aprende a respirar sem aparelhos em uma avaliação. Respirar sem aparelhos aqui representa ter maturidade para tratar um assunto e com o devido respeito se dirigir a ele como amigo íntimo.

          Foi assim para alguns alunos quando apresentei um trecho do livro A literatura e os possíveis da escrita literária de Nilson Oliveira e pedi uma aproximação da teoria com um conto de Maria Lúcia Medeiros.

          Isso para mim é beleza.

          Eu tenho assistido a esse espetáculo ao longo desses dias e, confesso a vocês que agora me leem, esse espetáculo me traz a visão de um eu maior. É como se naquele momento presente, diante de um aluno ou aluna que cresce visivelmente aos meus olhos, eu me lançasse para dentro de uma alegria infinda. É como se nós, os envolvidos nesse processo, não passássemos impunes e recebêssemos a força de um vulcão devastando as nossas incompreensões e trazendo, em seguida, a calmaria do dever que parece ter sido cumprido.

         E isso é beleza para mim.
 

        O ÔNUS DA SENSIBILIDADE.
 

        Eu posso lhes dizer que também tenho momentos de muita tristeza, quando um aluno agoniza e pede aparelhos tentando respirar e se perde das linhas do aprendizado. Mas a respiração livre e espontânea do outro aluno me devolve os ânimos e eu não me desespero.
 

        UM APRENDIZADO.
 

        Viver de literatura é sempre um aprendizado. É como se as páginas sempre se permitissem serem reescritas por novas turmas a cada semestre.

         É como se eu vivesse em experimentações de sonhos, longe, bem longe do real. Viver de literatura para mim tem sido um delírio. Um delicioso momento de delírio.

 
p.s. Essa é a minha experiência. Caso queiram conhecer a experiência de Letícia Sabatella e entender um pouco mais o que lhes digo, assista o trecho do filme Eu maior.

  


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

QUANDO CRESCER, QUERO SER UM CALOPSITA

                             Em Citrial uma história que parece duas abre a I Ciranda Literária


Ah meu diário, essas tuas páginas revelam as minhas mais fortes sensações de estar viva.

−E o que é estar viva? Pergunta essa página do meu diário.

Estar viva é enfrentar uma tempestade e sair dela cantando como um Calopsita. O Calopsita parece ter vindo da linhagem dos felizes.

Foi assim o meu dia de ontem. Ontem tomamos um banho de chuva, todos nós, que estivemos na I Ciranda Literária, juntos com Os Guardadores da Palavra Poética, esse é o nome dos que me acompanham cantando como se também viessem da linhagem dos Calopsitas.

Acontece que ontem era o nosso amanhã tão esperado. Pulamos a fogueira quente dos obstáculos e sem qualquer patrocínio, avançamos para levar aos que estiveram lá, um punhado de palavras poéticas guardadas.
 
Ontem foi o dia de dar ao mundo um pedaço da resposta do projeto SAPLI: Sociedade dos Amigos da Prática Literária. Projeto que sobrevive com a força de Felipe Araújo, Flávio Oliveira, Geysa Neto, Elizier Araújo, Rodrigo Brito, Rayane Serrão, Tainah Ferreira,Tiago Hulshof e eu.
 

Agora voltemos ao estado de coisas descobertas no período de tempestade, se existe outra vida, todos esses voluntários do Projeto SAPLI foram, na outra vida, Calopsitas. Eu acredito nisso, porque eles me fazem ter a forte sensação de estar viva. Viva e cantando, sempre cantando como um Calopsita.

Então eu devo agradecer aos Guardadores da Palavra Poética, aos palestrantes convidados e a plateia. Para o resto da minha vida, obrigada meus Guardadores da Palavra Poética e companhia daquele dia. Amém.

Hoje acordei como um Calopsita cantando. Isso para mim é estar viva.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MAIS UMA VEZ O (a)MAR

 
            Foram alguns minutos, mas foram suficientes para o estardalhaço, para o clarão se firmar. Chovia muito naquela tarde de outubro e tudo parecia convergir para a arrebentação. Com as mãos firmes no leme o Projeto SAPLI e os Guardadores da Palavra Poética se mantinham ali, firmes e acreditando que a tempestade seria mais um prenúncio de uma grande primavera a nascer bem no meio da região Norte. E assim foi feito.


           Chegamos ao cais e instalamos aquelas crianças tantas nos assentos da nossa embarcação, mas elas eram tantas que o espaço parecia ter diminuído e nem mesmo a falta de conforto abatia aquelas crianças tantas.

         E sentadas nas cadeiras e no chão e embaixo da mesa elas se sentiam mais seguras. Seguras pela mão da história que ali seria contada. E a tempestade foi abrandando e o som que então se ouvia já não era mais de água forte a correr pelos telhados da nossa embarcação. O som que então se ouvia, eram as vozes, os sopros vindos do coração dos Guardadores da Palavra Poética se instalando no coraçãozinho daquelas crianças tantas. Era o Projeto SAPLI acordando as crianças naquele dia tão chuvoso.

        Ditas as palavras finais:
        Nós pensamos e contamos essa história que parece duas, mas o sonho é um só.

toda a tempestade cessou e um novo som era tudo o que se ouvia. Uma das tantas crianças a gritar de alegria:

        Vamos bater palma!

       Era a hora do ato final, ou quem sabe recomeço de tudo.

 

domingo, 23 de setembro de 2012

APRENDENDO A RESPIRAR COM NEY FERRAZ PAIVA E NILSON OLIVEIRA

imagem de Gabriela Itubide
(imagem gentilmente arrancada do hospício moinho dos ventos)
 

depois desta sexta-feira, 21 de setembro

          Filas e filas de pessoas conversam sobre coisas desimportantes. Às vezes acham até bárbaro o estado de dizer asneiras desenfreadamente. Poucas, bem poucas, sentam para uma conversa de encantamento e outras diabruras. Era disso mesmo que eu queria falar, de boa conversa e diabruras.
          Depois de hoje, aprendi a respirar com Ney Ferraz Paiva e Nilson Oliveira. Depois de hoje, inspirar pode ser estabelecer contato com o pensamento deles através da boa conversa. Escutá-los é inspirar. E, expirar pode ser expandir, fazer chegar ao outro tudo o que ouvi deles e que me fez crescer demasiadamente.
          Um dia, me disse Ney Ferraz Paiva, o poeta é afinador de tempestades. Mas, tem sido muito difícil mudar a paisagem, caro poeta.
          E foi por isso que hoje, iniciei uma boa conversa:

− acordei com um poema me incomodando.
− se incomoda, é porque não presta.
− não. se incomoda é porque quer sair.
− ah, sair de dentro de ti e ir embora?
− é.


domingo, 16 de setembro de 2012

MINHA ESPERANÇA NÃO É SÓ VERDE E AMARELA

 
                Olha o passarinho voando do olhar daquele menino!
          Antes que o mês acabe, devo rabiscar mais uma página, ilustrar mais esse espaço  com os olhares capturados no mês de agosto e chegada do mês de setembro.
 
          Houve um tempo de ausência muito grande, tempo do pensamento Sapliano se mantendo guardado em uma gaveta, tempo perdido ou talvez, quem sabe, tempo guardado para um acontecer mais sólido, mais maduro e bem mais próximo de mudar a cor da minha, da nossa esperança.
          Nesse mês de setembro, não conhecemos a primavera previsível, porque somos do Norte e aqui tudo que temos são chuva e sol marcando inverno e verão.

Mas, nós que trabalhamos no Projeto SAPLI, descobrimos flores nos olhos das crianças da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Santos Dummont. Bem no meio do bairro do Guamá, na cidade de Belém do Pará, há crianças que aprendem a olhar para o passado e seguir em busca do presente e, quem sabe, do futuro.

É bem verdade que há também crianças naquela escola que tem flores mortas no olhar, flores que precisam ser regadas. Para elas, o Projeto SAPLI pretende levar baldes de água. E assim, haverá primavera e outras cores plantadas, pintadas no olhar daquele menino.



P.S Fotos dos alunos da Escola Santos Dummont mudando a cor da esperança.


  
              

sábado, 8 de setembro de 2012

INDEPENDÊNCIA OU SORTE ?

Andar no mato de pés descalços, para quem nunca tirou os sapatos, não é tarefa fácil, não é tarefa fácil.

Correr na direção contrária da multidão, respirar sem aparelhos quando se está em crise asmática, ir ao Sul, no inverno, sem casaco, comer folha sem mastigar e sem tirar o talo, praticar surf sem saber nadar...


Não é tarefa fácil, não é tarefa fácil.
 
Acreditar que se fez um movimento simples e terno na direção do outro, ajudando-o a sair da caverna de olhos abertos, quando se passou alguns anos vivendo nela, não me parece tarefa fácil, não me parece tarefa fácil.

Mas o que não é fácil, não pede para ser impossível.

Do que essa mulher está falando? Essa mulher parece comer caracol quando fala, dando voltas e voltas no seu querer dizer as coisas?

Essa mulher que te fala agora, caro leitor, quer te falar de um tipo de alegria. Alegria provada em gestos inesperados.

Era uma terça-feira, dia quatro de setembro, não era dia sete, porque sete é dia de outra proclamação. O dia era quatro de setembro, dia de proclamar a Independência do Leitor. Foi o que pensei quando vi os pequeninos da Escola Santos Dummond anunciando que entraram para o Projeto SAPLI: Sociedade dos Amigos da Prática Literária. E desfilaram mostrando livros como quem traz no peito a cor de uma nova Independência. E seus olhos faiscavam um novo grito:

     Independência ou sorte?

     
P.S. Foto feita no desfile da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio “Santos Dummont” no bairro do Guamá. Escola que acolheu e acredita nos princípios do Projeto de Extensão SAPLI: Sociedade dos Amigos da Prática Literária, da Faculdade de Letras da UFPA. Por tudo  isso, a Profa. Giselle Ribeiro, coordenadora do projeto, e seus voluntários agradecem.

 

domingo, 2 de setembro de 2012

DIAGNÓSTICO COMPROVADO: HÁ DIAS DE SER ISMÁLIA


Tenho frio doutor.  Moro bem no meio do Norte e tenho frio. A meteorologia acusa 45 graus e eu tenho frio. Devo completar duas semanas do mês de agosto com intenso frio, e esses 45 graus não me atingem.
Não doutor, não quero antitérmico. NÃO tenho febre, tenho frio! Tente aproximar o seu olhar da minha epiderme. Doutor, não preciso da farmacologia, quero a companhia dos nascidos na linhagem do bem.

O doutor me olhou por longas horas e receitou:
Passar o resto dos dias tomando banho de lua e banho de mar.

E diagnosticou: Tentar a cura para a Solidão

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

NOVO NOME DE BATISMO


Desde tempos, não muito remotos, só vou ao mar com colete salva-vidas. Os medos que tenho me roubam o exercício do novo, mas nem por isso me tiram a sede. Gosto de água como quem gosta de pão quente com margarina qualy, depois das três da tarde. E essa também sou eu.
Se ainda vivesse no tempo de água em pote, pensaria em ter um caso com o pote só para sair abraçada com ele sem grandes estranhamentos, sem que a mim dissessem: Lá vai a louca do pote. E ter o prazer de ouvir: Lá vão o Sr. Pote nos braços da sua bem-amada Sra. Água.

De tanto beber água, eu já teria a confusão do que sou. Eu já seria a fusão do sólido com o líquido, eu já seria água. Se ainda vivesse no tempo de água em pote.

Mas os tempos mudaram e chegaram os filtros e os galões de água. Nem por isso perdi o gosto de beber água. Dou várias voltas do meu quarto até a cozinha, encho o copo me fartando, na tentativa de sair do estado sólido para líquido.

Agora, tenho ensaiado entrar no galão e ficar vendo peixes de toda cor passarem por mim.

Gosto de água como quem gosta de pão quente com margarina qualy, depois das três da tarde. E essa também sou eu.

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O ILUSTRADOR DA EXISTÊNCIA

         
           Leia tudo sobre isso, diziam os ingleses em tempos finais de Olimpíadas do ano 2012 e a cidade toda se fez de papel, jornal, tudo feito de palavras escritas: caminhão, piano, chão. Tudo feito de palavras escritas, prontas para serem lidas.
          Leia tudo sobre isso, repetiam os ingleses mostrando os atletas e suas emoções. O rosto dos tristes e dos alegres, as perdas e os ganhos, o triunfo e a queda e insistem nos dizendo: Leia tudo sobre isso.
          Foi aí que saltou da minha memória uma boa lembrança lida no Jornal de Infância de Anaïs Nin:

           Eu não vou mais ler tantos livros. Agora eu vou ler gente. Agora eu vou ler as pessoas.
      
          Então é exatamente o que acontece com os escritores. Um belo dia eles acordam lendo palavras e fazendo da leitura um vício e passam o resto de suas vidas nesse exercício de ler palavras, gente, bicho, planta, coisas.
         Depois fiquei pensando: Escritor literário tem cara de Cartório de Registro. Os registros de quase tudo desse mundo são feitos nele. E de lá pra cá, ele nos entrega o ofício que nos cabe tão bem, como se nos conhecesse de longas datas e compreendesse o que somos dentro do sistema em que vivemos.
         E quando volto a pensar no assunto, chega até mim uma certeza:
        
         O escritor literário é louco. Graças a Deus.
       

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

PARA TANTA LUZ, A SOMBRA



Há esperanças de que o sol não me alcance. Costumo caminhar procurando árvores e telhados que se estendam um pouco mais pelas ruas e me favoreçam com sua sombra. Nem mesmo em dias de verão, me contagio com o clima de euforia solar que todos se submetem. Acho que não sou todos, por isso procuro a sombra.
Um rapaz  que esperava a hora de ir à praia, me viu em casa numa manhã ensolarada do mês de julho diante do computador e disse:

- Trabalhando, trabalhando, sempre trabalhando.
Eu não medi palavras. Respondi:

- Meu prazer tem outro nome. Você prefere o sol. Eu a sombra.
Tempo ruim pra mim, é tempo de muito sol e quando não encontro uma árvore ou um telhado estendido um pouco mais até a rua, salto da minha bolsa uma sobrinha que se abre para me proteger e avanço pelas ruas no caminho de casa.  

Nasci para a sombra como a luva para a mão.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

VISITA AO CENTRO DE SI

                                                            Faltam-te pés para viajar?
                                                            Viaja dentro de ti mesmo,
                                                            e reflete, como a mina de rubis,
                                                            os raios de sol para fora de ti.

                                                            A viagem conduzirá a teu ser,
                                                            transmutará teu pó em ouro puro.

                                                                                                    Jalaluddin Rumi

          Todos foram à praia: mãe, irmãos, vizinhos e moradores daquela capital. Todos foram à praia. Para isso foram feitos, para lustrar os olhos dos outros, para regar as aparências, para bronzear a matéria vista. Chamam isso de felicidade, alegria ou coisa parecida. Felicidade para eles é quando a tribo toda se junta para olhar para fora, para a cor da pele, dos cabelos e conferir a etiqueta da roupa.
          Mas havia uma mulher, naquela capital, que se negava o luxo do olhar dos outros e marcou encontro com uma outra que crescia dentro dela. No primeiro dia marcado daquele mês de julho, a outra não veio. E a mulher esperou longas horas roendo o canto das unhas, andando e olhando para o centro de si. Parecia querer arrancar a outra de dentro do umbigo gritando: −Venha logo!
         Passado o dia marcado, daquele mês de julho, a mulher disse para dentro: −Além, hoje está além de mim, me visitar. Olho para a porta de entrada da minha sala de estar, a minha sala de estar mais em mim, mas não ouso entrar. Aprendi a me encontrar e jamais querer me desencontrar. Já dei voltas e voltas pela minha casa interior, pelo lado de fora dela. Hoje minhas portas e janelas parecem fechadas. Mas eu me desacostumei com o lado de fora.
         Desistiu da visita e seguiu na direção do bosque, se perdeu de si.  
         Outro dia daquele mês de julho, inesperadamente se encontraram, as duas. Enquanto todos foram à praia, a mulher foi para um espaço tranquilo, de chão todo azul. E deitada no chão todo azul, foi levada por uma voz que anunciava a direção certa: ponta dos dedos dos pés, pernas, abdômen, costas, ombros, nuca, cabeça, boca, garganta, dentes, língua e tudo o que formava a sua estrutura.
         Subitamente a outra foi reconhecida dentro dela: água de rio, iluminada por uma lua. Ela é feita de água prata correndo no corpo da mulher como um ciclo de evaporação e transpiração. As duas, em uma, atingiram a superfície da terra, bem no meio daquele chão todo azul.
          E houve felicidade do tipo desconhecida pelos que foram à praia.


P.S. VISITA AO CENTRO DE SI é um texto 50% realidade, 50% ficção. Por isso, posso chamá-lo texto de equilíbrio ou Realidade Reorganizada. Texto tecido na noite do dia 17 de julho, depois de praticar Yoga com a Profa. Patrícia Almeida e ouvir a voz que nos conduz ao centro do que somos nós.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O EXERCÍCIO DE SER MÃE

                                          Linda Ribeiro e o exercício de ser mãe


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora [...]

Foi isso que um dia Drummond soprou no meu ouvido. E quando se sopra no ouvido de poeta, é só esperar pra ver. De lá, há de sair outro vapor :

Eis o vapor:

Eu estou pensando agora no exercício de ser mãe.

Há semelhanças visíveis em ser mãe de gente e ser mãe de livro?

Eu aposto, todas as minhas moedas, na resposta positiva. Digo isso porque na gestação de livro temos o momento da fecundação dos impulsos que vem de fora para dentro. O que não estabelece interdição nenhuma com os impulsos que vem de dentro pra fora. O escritor literário é tão mãe quanto os outros tipo de mãe. Porque a fecundação, nos dois casos, pode ser de intensa troca.

O que isso quer dizer? Eu não entendi! Pensa o meu leitor.

E eu que vivo o meu mais novo estado de gestação de livro, reintero: na gestação de gente há o momento amoroso, o encantamento do futuro pai com a futura mãe que, algumas vezes  abrigam as suas sensações amorosas e nesse momento de abrigo, o futuro pai transfere o sêmen que enlaçará o filho(a) e este, por sua vez, será gerado no ventre da mãe, ficando lá até chegar o tempo de se aventurar no mundo, do lado de fora.

O que é um pouco parecido com a gestação de livro, pois que primeiro há o enamoramento do escritor com o seu objeto de desejo: a cidade e seus subterfúgios, as pessoas e suas reações diante da vida ou da morte, o país de origem ou até mesmo o país que nunca viu de tão perto, mas sabe reconhecê-lo por outro tipo de aproximação. Os esgotos de cada um de nós, por onde passam a nossa lama ou as nossas praças cheias de verdes árvores, pássaros cantando e brisa mansa. É assim a gestação de livro. É assim que os escritores são fecundados em um impulso que vem de dentro pra fora e de fora pra dentro.

E depois de tudo isso mãe de gente e mãe de livro esperam o dia, a hora, o momento de dar à luz ao mundo que, no princípio, era feito de treva.

Eu não sei quando o primeiro homem se tornou mãe. Mas eu sei que Homero foi mãe, quando engravidou e fez vim ao mundo a Ilíada e a Odisseia.

Para a literatura há caminhos do possível e mulher e homem se tornam mãe.

E é assim que a literatura desafia a ciência.