sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

APETITE VORAZ DE ALEGRIA



Palhaço ou omino di paglia, ou também homem de palha, ou... ou... Para minha infância os nomes tantos não tinham lá essa importância, o que me valia era saber que eles vinham sempre de mansinho e afugentavam as nossas tristezas tantas. Pelo menos nos circos, eles eram os iluminados, aqueles que levantavam todo o pó de alegria de qualquer gesto da platéia ou deles mesmos.

Passei então a nomeá-los: Espantalhos das desalegrias.

Desalegria é uma palavra indicionarizada, aliás essa última palavra também é, porque se procuradas no dicionário, ninguém vai encontrá-las. Eu acho muito legal essa história de renomear as coisas. O Marcelo Marmelo Martelo, por exemplo, é o meu herói favorito nas batalhas das coisas e seus nomes. Mas eu vim aqui hoje mesmo foi para falar dos Espantalhos das desalegrias. Eu conheço uma mulher que é mestre neste ofício e ela tem leveza suficiente para saber derrubar umas pontinhas de tristeza que às vezes pensam nos derrotar... Eu acho que ela come muito Feijão para poder se manter firme no ofício de Espantalha das desalegrias. Uma vez, ela se apresentou com o nome de Angélique e junto com a sua trupe espremeu humor do que se dizia arte, dita na voz de Molière Le malade imaginaire e na voz d’Os Palhaços Trovadores: O hipocondríaco.

Eu só sei que quem estava triste naquele teatro, desaprendeu de estar, porque um exército os Espantalhos das desalegrias andava por lá contando a história de um homem que pensava estar sempre doente e era louco por remédios.

Para espremer humor de dor é preciso ser Palhaça, ser Espantalha das desalegrias, ser Angélique, ser Suani Corrêa. E isso é tudo o que sei!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

INVERSO ou MUDANÇA DE PELE

professora Giselle Ribeiro e alunas na Universidade Federal do Pará

MUDANÇA DE PELE: Agora escritora Giselle Ribeiro entrevista Professora Giselle Ribeiro.

Escritora: Para você que é Professora de Teoria Literária, o que seria ensinar literatura em um país de poucos leitores?

Professora: Para esta pergunta, meu coração se mantém na linha de frente com o que acredito fortemente: é preciso, antes de tudo, fazer acordar o que Roland Barthes chama de Prazer do Texto.

Escritora: Então, para você é possível virar o jogo e fazer uma população teleguiada voltar a virar página por página na busca das próximas linhas de um livro?

Professora: Tudo que dorme, poderá um dia acordar. E se essa população, da qual você fala, passou por um momento de encantamento, um momento de aprender a decifrar códigos, enigmas, signos como um investigador apaixonado pelo seu ofício, como uma bordadeira que cantarola toda vez que a linha encontra o tecido e nasce uma imagem nova, e se esse momento foi sedado pela velocidade do tempo presente, esse passado, guardado e adormecido há de ter o seu tempo de abrir os olhos e espreguiçar...

Escritora: Você acredita, de verdade, no que acabou de dizer?

Professora: Acredito. Por isso me apaixono cada vez que um aluno se diz:

- É isso que eu quero para mim. Agora eu quero a literatura na minha vida.

É esse o tempo de fazer acordar o prazer do texto. E eu já vi alunos entrarem nas minhas disciplinas achando que eu era louca e depois eles se descobrem também loucos pela literatura e fazendo literatura...

ESCRITORA: Então como é a sua relação com os seus alunos?

PROFESSORA: Há um espaço certo para nós: eu sou professora e eles meus alunos e disso nós não podemos escapar. Dentro da sala de aula eu sou a professora e ser professora para mim pede muito mais que só ensinar teorias, ser professora pede o ensinamento de ser Gente, Ser Humano. É reconhecer que se pode seguir amando o que se faz. Eu amo minha profissão e bem no colo dessa minha profissão eu embalo meus alunos. Para eles eu tenho um amor, um amor que não pode ser confundido com outra coisa que não seja respeito, admiração e vontade de vê-los crescer como Gente, crescer sem ferir ninguém. Esse é o melhor dos ensinamentos que nós, professores podemos dar aos nossos alunos, os outros ensinamentos são só os fios desta teia.

ESCRITORA: Para você a teoria literária contribui para a escrita literária? Em que sentido isso pode ocorrer?

PROFESSORA: Eu já tive alunos que perceberam o enlace da teoria e da prática literária, mas também já tive alunos que se rebelaram e me perguntaram:

- Para que toda essa teoria? Esses teóricos não sabem de nada, quem sabe é o escritor. É ele que faz o acontecer da literatura.

Os que se rebelaram, desapareceram da turma, preferiram se negar a aproximação do entendimento. Devem ainda estar adormecidos. Mas os que atingiram os dois estados: o fazer literatura e o pensar a literatura, descobriram que a teoria, às vezes, traz para a literatura contribuições que podem ter sido despercebidas pelo seu autor, e, às vezes, pelos leitores. Mas a iluminura mesmo acontece quando deixamos agir de fato, a produção literária e assim poderemos ver acontecer a teoria ou tão simplesmente contestá-la.

ESCRITORA: Um verso para os que passaram pela sua vida profissional e aos que ainda virão:

PROFESSORA: Para os que passaram, os que escaparam e os que virão, eu diria que as dificuldades são só convites para sermos melhores. E para eles, tomo emprestado um verso do livro Arranjos Para Assobio, do Manoel de Barros:

“Alegria é apanhar caracóis nas paredes bichadas”

domingo, 15 de janeiro de 2012

NO COMEÇO ERA O VERBO, SEM CONJUGAÇÃO

video

- Filha, tu nunca mais foste à igreja.

Disse minha mãe em um desses dias que estamos impossíveis aos olhos dos outros. Minha mãe acha que ter uma religião é ir à igreja procurar Deus e que a igreja cura as nossas doenças exteriores e interiores. Minha mãe leu a Bíblia em mergulhos rasos, mas não leu Psicologia e Religião Oriental de Carl Gustav Jung. Minha mãe nunca praticou Yoga. Minha mãe não sabe que minha tristeza desaguou para outros rios quando descobri que a minha religião é Deus e que a eu estou bem dentro do nome dele. É só olhar para o nome dele e lá estou eu. DEUS nunca mais se viu longe de mim, tampouco eu ignoro que estou com ele. Não sei dizer ao certo como reaprendi a ler o nome dele, mas sei que quase todos procuram por ele do lado de fora. E talvez por isso, conhecem dores mais agudas, tristezas quase infindáveis e as suas curas têm prazo curto de validade. Um dia desses me dei conta do longo tempo que a tristeza não mais me visita com seus dias marcados sem me avisar, e pensei:

Teria ela perdido meu calendário e o mapa da minha casa?

E me olhando como quem já quase se conhece por inteira, descobri em mim uma leveza, uma luz até mesmo nos cantos onde havia sombra... Dentro de mim agora tem luz com energia solar e lunar. Quer dizer, não há mais freqüência da escuridão dentro de mim. E assim eu descobri que sabia ler o nome de Deus pelo avesso.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O SOM DO VAZIO



(para ler ouvindo "As Montanhas" - de Madredeus)

Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem desassossega da espera pelo leitor e faz vigília dia e noite, noite e dia. A mãe se inquieta:

Filho não te acomode no terraço frio. Entra. Eles não mais virão te buscar esta noite.
Quando eles vinham, lembra? Eles assobiavam como se quisessem espantar a sombra dos medos de dentro deles, e eram tantos. Um exército inteiro soprando cantigas nunca dantes ouvidas, porque nunca também inventadas. Filho, o som que tu ouves não são os medos deles, são os pífaros de Madredeus no alto d’As Montanhas nos chamando para subir. Beija a mão da noite que te acolhe e entra. Vamos dormir filho?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UM EU PLURAL



PROFESSORA GISELLE RIBEIRO ENTREVISTA ESCRITORA GISELLE RIBEIRO

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: É possível definir poesia ou para você definir poesia é crime?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Encontrar uma ÚNICA definição para a poesia é crime. Uma das coisas que a poesia pode ser, uma casa sonora. Ela é uma grande casa com uma numerosa família habitando seus compartimentos. E cada vez que a família, moradora desta casa, se movimenta a poesia se alarga para caber toda nela. Eu aposto na poesia como uma grande casa sonora porque sei que todas as portas desta casa se permitem abrir pelos seus moradores e fazer deles seus moradores mais fieis. E eles são fiéis porque foram encantados pela casa sonora. A encantação começa quando o leitor se permite ouvir todas as vozes, todos os sons que a poesia tem para ele. Outra coisa que a poesia pode ser, um guarda-roupa cheio de peças para serem usadas em todas as estações do ano, ou todas as estações do seu tempo emocional: em dias de tristeza ou alegria pura tem poesia certa para vestir. Então entre neste guarda-roupa e experimente o que melhor lhe couber em cada dia do ano.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: Como acontece a criação literária para você que é poeta, com três livros já publicados?

ESCRITORA GISDELLE RIBEIRO: A criação literária pode acontecer como um espirro que lança estrelas para fora do escritor. Depois disso dito, podemos imaginar um espaço escuro que pouco, bem pouco se pode ver e, de repente acontece uma invasão de vaga-lumes. Pequenos pontos acendendo e apagando... Acendendo e apagando... Acendendo e apagando... E que dão clareza e ao mesmo tempo escondem clareza do leitor para torná-lo receptor ativo, aquele que terá vontade de acender esses vaga-lumes para saber o que estaria por trás daquela escuridão. Os três livros que eu publiquei, têm histórias diferentes e parecidas, ao mesmo tempo. O processo de criação literária é uma coisa surpreendente, pode ser um momento duradouro para atingir a maturidade poética, o tempo certo do nascer para o mundo. Mas pode ser também um espirro lançando estrelas para o espaço do leitor.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: Objeto Perdido. Esse é o nome do seu primeiro livro, qual o caminho trilhado para se chegar ao título de um livro?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Às vezes o que dura mais tempo para nascer é o título de uma obra de arte. Foi assim com o Objeto Perdido. Quando o livro já tinha a formação quase total do seu corpo, a cabeça pediu para ser gerada. E foi em 1997 que recebi uma carta vinda de Paris. Minha amiga e psicóloga Léa Sales estava fazendo um curso em Paris e me mandou de presente uma carta recheada de possibilidades de pensar o título do livro. Na carta eu encontrava explicação freudiana para os nossos conflitos e estava ali o segredo para o título do livro. Por isso o trecho desta carta aparece na contracapa do livro.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: E 69 durou muito tempo para o título ou a cabeça do livro também nascer?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Eu confesso que não me sinto muito confortável para tratar da pele dos meus livros. A mim sempre parece que o livro quer e deve falar por si. Há leitores que desejam comprar o 69 só pelo título, sem fazer uma leitura proposta desde a capa, melhor dizer, da coluna vertebral do livro. Antes mesmo de abrir o livro, ele já anuncia o que tem dentro dele. A viagem deve começar desde o momento da embarcação.

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: Pequeno Livro de Poemas Para Vestir Bem, esse é o título do seu terceiro livro lançado na XV Feira Pan-Amazônica do Livro e parece querer lançar uma nova moda. É isso?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Eu não digo que é a nova moda, mas uma moda antiga que quer retomar o seu lugar. Houve um tempo, nós o perdemos, em que se ouviam histórias antes da noite tomar velocidade e se transformar em dia. Era o tempo em que a eletricidade não violentava a nossa imaginação, o tempo que se ouvia histórias e se lia também muitas histórias como se elas fossem parte de nós. Era como se abríssemos o guarda-roupa e descobríssemos a roupa como pele nossa. Então, tomávamos emprestados os textos acreditando que naquele momento mágico, o texto nos pertencia e nós pertencíamos a ele. E havia cumplicidade!

PROFESSORA GISELLE RIBEIRO: O que você diria para a geração que tem sido violentada pela descoberta da eletricidade?

ESCRITORA GISELLE RIBEIRO: Às vezes, é preciso apagar a lua para se ver melhor.